sábado, 9 de abril de 2011

EM FIM ÁGUA




ESTOU FELIZ! MUITO FELIZ!

Vocês com certeza não vão entender o que estou sentindo. Faz tempo em que água era um item de primeira necessidade. Vocês esbanjam, gastam lavando calçadas e carros. Passam horas sob o banho ou fazendo a barba. Se depilando meninas? Porque não?

Dando banho no cachorro, escovando os dentes, esperando a água aquecer ou esfriar, essas coisas.

Mas vou tentar deixá-los sentir, pelo menos um pouco desta sensação.

Estou a mais de 4 anos com problemas de falta d’água em minha casa. Não se espantem, tenho onde tomar banho e fazer a higiene diária sem problemas. Mas não é na minha casa, no meu canto, meu castelo, meu barraco ou sei lá como queiram chamar.

Começou com panes a cada seis meses. Diminuiu para três. E assim foi.

Para tentar fazê-los entender, é necessário explicar como funciona o sistema tradicional de abastecimento de água de uma residência.

Normalmente existe uma cisterna (reservatório de água abaixo do piso da casa) que armazena grande quantidade de água, servida pela CEDAE. Na parte mais alta da casa fica a caixa que armazena uma quantidade (inferior a da cisterna) de água. Dessa caixa, por gravidade e através da tubulação, é feita a distribuição da água aos cômodos (banheiros, cozinha, jardins (onde tiver uma torneira), espaço da churrasqueira e onde mais houver alguma coisa onde ou através de, saia água.

Conforme essa água vai sendo consumida uma bomba puxa água da cisterna e joga para a caixa lá em cima.

No meu caso, não há essa caixa lá em cima. Para resolver essa situação, vários sistemas foram criados e eu, orientado por um arquiteto, escolhi o que é composto por uma bomba comum e um equipamento eletrônico que faz essa bomba funcionar ao “sentir” que foi aberta uma torneira. A bomba “puxa” a água da cisterna e a “empurra” tubulação a dentro até sair no ponto que foi aberto.

É um sistema facilmente encontrado no mercado que como muitas outras coisas oferecidas a nós, incautos, NÃO FUNCIONA! Chama-se Smart Jet da Dancor.

As panes aconteciam em momentos inusitados. Claro, se não, não seriam panes. Lei de Murph (é assim que se escreve?). Ora eu estava escovando os dentes, ora estava lavando a louça e, nas piores, estava cozinhando ou tomando banho. Acho que não preciso contar como é estar tomando banho e a água acabar exatamente quando você está tentando tirar o shampoo dos olhos que queimam como brasa.

A cada pane eu ficava transtornado. Iniciava o processo xingando todas as gerações do FDP do arquiteto, depois passava pelas entidades que poderiam estar conspirando contra meu conforto e depois, como se tentando aceitar a situação e iniciando um processo de resignação, começava a sentir que não era justo um cara sério, ético, honesto, etc. passar por esse tipo de situação.

Eu não admitia que políticos, bandidos, traficantes e demais elementos desta estirpe poderiam ter água e eu não ter.

Enchia garrafas d’água e subia carregando-as como se fosse um favelado dos anos sessenta (sem querer discriminar, não quero entrar nessa história de minorias e etc. por favor, chega de problemas!) ou nordestinos que carregam latas d’água na cabeça caminhando quilômetros.

Eu pago meus impostos religiosamente, não tenho como sonegá-los. Eles são usurpados de meu salário a cada 30 dias sem dó nem piedade ou respeito. E no final do ano ainda tenho que prestar contas, pois o Leão pode ter errado em uma de suas bocadas mensais.

Esse meu suado dinheirinho é usado para bancar mensalões, obras faraônicas para as olimpíadas e/ou copa do mundo, bolsas diversas e outras cositas mais que aparecem nas páginas e vídeos dos vários meios de comunicação deste imenso e tão roubado país.

E EU NÃO TINHA (espero ter resolvido o problema) ÁGUA!!!

Queria dar banho no meu cachorro, lavar minhas meias e cuecas (sim, eu as lavo, sempre lavei minhas roupas íntimas). Queria cozinhar para ou com meus filhos. Filhos que diminuíram sua freqüência devido ao problema. Queria cozinhar ao menos a salsicha que dava todo o final de semana para meu cão a fim de variar seu paladar.

Mas eu não podia. As entidades não deixavam. Vocês não fazem idéia a quantidade de vezes que discuti isso com minha terapeuta!

As panes foram se sucedendo, em intervalos cada vez menores e a cada um deles eu aguardava aproximadamente 24 horas para a raiva baixar e subir no telhado para mais um conserto. Mais um período.

A sensação de impotência e incapacidade técnica consumiam contundentemente centímetro por centímetro de minha auto-estima.

Eu já não sabia se iria poder tomar banho (no meu banheiro) na manhã seguinte ou na volta do trabalho.

As providências técnicas eram discutidas com experts no trabalho (o departamento de engenharia de uma multinacional). Todos diziam que eu estava atuando de maneira correta com raciocínio idem.

Passei a ser conhecido como o homem bomba. Osama Bin Laden ia sentir inveja de mim.

Os amigos eram todos rechaçados, pois não sabia se haveria água para lavar suas mãos ou copos.

As panes haviam se tornado diárias. Sucumbi.

Decidi não mais consertar, não mais trocar idéias, não mais fazer qualquer coisa. Subir e descer a escada carregando garrafas (alem de levar Boris para esvaziar) era o meu exercício diário.

Essa atitude me deu paz. A certeza de que não teria água me fez re-planejar meus afazeres diários. Banho e demais necessidades de higiene eram feitos na casa de minha (Santa) mãe (Como ela ouviu! nossa Senhora!), sem problemas a não ser descer e subir escadas mais do que o normal.

Comprei garrafas de água mineral para beber e as coloquei na geladeira. Todos os ingredientes que haviam na casa autorizei a faxineira levar, pois não havia data para serem utilizados novamente.

Passei a jantar na rua ou, muitas vezes, não jantar. Biscoito ou pipoca eram ingeridos nessas situações.

Emagreci. Isso foi ótimo!

Á água transportada escada acima era utilizada para regar as plantas, lavar as mãos em uma emergência ou copos que eu utilizava.

Seria uma retirada estratégica. Nunca me dei por vencido e não seria agora.

O plano era aguardar certo tempo, recarregar as baterias, até que resolvesse retomar a “Via Crucis”.

Foram dois meses.

Semana retrasada, decidí trocar o sistema. Ia gastar uma grana, mas, segundo meus gurus do trabalho, tinha grandes possibilidades de resolver o problema.

E começou a chover todo o fim de tarde. As entidades estavam decididas a me prejudicar. Provavelmente já vislumbravam sua derrota.

Como vou de moto para o trabalho, a chuva me impedia de passar na loja de bombas para adquirir o equipamento novo.

Foram sete dias de desespero.

Consegui realizar compra. Agendei a instalação para sábado de manhã (hoje) o que aconteceu sem nenhum percalço.

As entidades sucumbiram.

ESTOU FELIZ! MUITO FELIZ!

Vocês, filhos de pais de classe média ou alta, ou aqueles contemplados pelos PACs ou Bolsas Escola da vida (parte providos por meus impostos) não fazem a menor idéia do que estou sentindo.

Fui ao supermercado, reabasteci a geladeira e demais compartimentos há muito vazios.

Depois de meses, tomei uma ducha no terraço, minhas meias e roupas íntimas estão no varal.

Amanhã meu filho vem ver o jogo do Mais Querido e vou querer cozinhar alguma coisa.

@BorisStaford tomou seu banho descentemente e suas salsichas estão devidamente cozidas e acondicionadas em “tap wares” no congelador aguardando o momento de serem degustadas.

Ele viu e está sorrindo como há muito eu não via.

E eu?

Se vou sair só, se vou sair com alguém, se vou dormir acompanhado, com Boris ou só, isso pouco importa. O que importa é que agora vou postar esse texto e depois tomar um maravilhoso banho no MEU BANHEIRO.

Economizem água.

2 comentários:

  1. MARIAH HELENA ARAUJO09 abril, 2011

    Olá meu bonitinho! E eu não sei desta sua via crucis! ENFIM ÁGUA! Você merece e confirma que o nosso prazer maior está nas coisas mais simples. Assim como o que combinamos assim que vc me passou a mensagem. To esperando.. morrendo de sede!! 1 beijo

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  2. Como sempre, deixa muito transparente o que sente.. quando escreve.
    Que bom que tá feliz.... por causa da água.
    Um beijo.

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