terça-feira, 28 de agosto de 2012

2º CAPÍTULO - O CORPO


O sol surgia ainda tímido entre as alvas nuvens que insistiam em permanecer acordadas. A lua ainda era vista no lado oposto, iluminada por ele.

Santa Maria é uma cidade de médio porte. Com dois milhões, trezentos e quarenta e três mil habitantes, segundo a última pesquisa realizada dois anos atrás.

Um dos municípios mais prósperos do estado de São José é muito bem governado a quarenta anos. Desde que um grupo de empresários e comerciantes bem sucedidos resolveu concorrer as eleições municipais daquele histórico 1890.

São José é um dos oito estados do país e tem forma de trapézio. Não é uma ilha mas é cercado de água por todos os lados. Ao norte assim como ao sul os rios Bello e Sertão são os limites, à oeste o Pirapora; o maior deles e a leste o mar com suas belas ilhas.

Santa Maria está localizada ao norte do estado, no vértice formado pelo mar com o Rio Bello. A beleza do conjunto formado por suas montanhas e litoral faz do município um dos mais conhecidos polos turísticos do país.

É onde se concentram as sedes das maiores empresas o que faz da cidade o centro econômico do país.

São Joaquim, nome dado em função de sua colonização é um pequeno país, com aproximadamente quarenta e quatro milhões de habitantes, farto em riquezas naturais. O clima é tropical, o solo é fértil e é um grande produtor de petróleo e minério de ferro.

O relevo é bastante peculiar. O país é cortado por três cordilheiras que formam um grande “F”, onde se concentram suas exuberantes florestas.

Cordilheiras intercaladas por planícies e planaltos onde prosperam sua agricultura e pecuária de maneira tal que suprem com folga as necessidades do povo. O excesso é mundialmente disputado devido a qualidade com que são produzidos.


Na planície mais ao norte localizam-se suas pequenas, mas importantes indústrias; hoje bastante conhecidas pela qualidade dos produtos fabricados.

Esse conjunto de particularidades fez com que São Joaquim se tornasse uma das maiores potências econômicas no planeta.

Mas nem sempre foi assim.

A partir de sua descoberta São Joaquim tivera sucessões de governos mal sucedidos. Devido a natureza extrativista de seus colonizadores, os governantes eram corruptos e incompetentes. Foram quase sete séculos de destruição, comércio ilegal, aniquilação da fauna, desmatamentos, prostituição, exploração excessiva com a cobrança de impostos exorbitantes e desrespeito as leis. Tudo isso feito sob o frágil véu formado pelas belezas e fartura de produtos nativos.

A saúde como a educação não eram prioridade e com isso mantinham o povo distante da real situação. Apenas uma pequena parte da população tinha acesso a uma boa educação e sistema de saúde de qualidade. Era número irrisório que não conseguia decidir nada com seus votos.

A maioria era mal nutrida e totalmente desinformada. Era mantida nessa situação a custa de auxílios alimentação e escola, postos de fornecimento de alimentação de baixo custo e outras ações populistas.

Como se isto não bastasse, esportes com baixo investimento eram utilizados como diversão como mais uma forma de esconder a realidade.

Grande parte da mídia era corrompida e com incentivos a essas ações e Projetos assistencialistas capengas davam às tristes Crianças Esperança assim como a seus pais carentes de dignidade.

Sob o pretexto de uma nova maneira de consumir o mundo, foi criada uma onda pró-ecologia visando um mundo melhor e sustentável.


A ideia era ótima, mas a forma como fora implementada não foi. Criaram organizações que receberiam parte dos impostos recolhidos diretamente e com isso diminuir-se-ia a possibilidade desse dinheiro se perder nas mãos dos políticos corruptos.

Mas esses políticos de alguma forma se associaram a muitas dessas organizações invalidando todo o processo.

A corrupção era tanta que se instituiu em todas as camadas sociais. Desde o tráfico e comércio de drogas, passando pelos produtos piratas, pelo jeitinho com que se resolviam os problemas, pela polícia, pelos órgãos públicos culminando nos altos escalões governamentais. Pouco da engrenagem econômica do país passava incólume por essa estrutura.

Terras ditas improdutivas eram distribuídas àqueles que não as tinham, em mais uma medida social, mas na realidade nada mais era do que um movimento organizado por pessoas de posse para se beneficiar de alguma forma.

Em 1876 iniciou-se, muito timidamente, uma revolução que viria mudar a história do país.

Alguns poucos fazendeiros, empresários e comerciantes, cansados de tantas injustiças resolveram se unir em reuniões que logo tornaram-se movimentos com a criação de um partido a fim de concorrer as eleições.

Um movimento inteligente, pacífico que começou com esclarecimentos às classes desfavorecidas, informando que eles tinham direito a uma vida melhor e que a única forma de obtê-la seria mudar seu comportamento bem como substituindo os governantes, origem do problema.

Foi um árduo trabalho de educação que só começou a surtir efeito em meados de 1880.

Até então muitos foram mortos por assassinos de aluguel cujos contratantes não eram desconhecidos.

O Partido da Plena Democracia, PPD, foi se consolidando e concorrendo às eleições.

Em cada uma delas o número de eleitos foi aumentando até se tornar maioria e em 1920 conseguiram eleger o Presidente, cinco governadores e a maioria dos prefeitos, Senadores, Deputados e Vereadores do país.


A revolução havia se consolidado sem o derramamento de única gota de sangue, a não ser aquelas dos brutalmente assassinados no início do processo.

As ações que viriam a consertar o país tiveram início e as mais importantes foram:

Suprimiu-se cem por cento das mordomias oficiais e foram leiloados todos os objetos provenientes desse corte. Destinaram parte do valor obtido na construção e manutenção de postos de saúde distribuídos em todos os municípios possibilitando a criação de um Plano de Saúde Preventivo.

A outra parte foi utilizada para criar institutos de pesquisa científica, empregando centenas de jovens cientistas a fim de aumentar a competitividade e produtividade da nação.

Reduziu-se o salário de todos os funcionários do governo, dos deputados e dos altos funcionários públicos. Com esse montante criou-se um fundo que dá garantias de bem-estar para idosos "improdutivos" em difíceis condições financeiras que garantam um salário vitalício. Tudo isso sem alterar o equilíbrio do orçamentário.

Aboliu-se o conceito de paraíso fiscal e emitiu-se um decreto presidencial que criou uma taxa de emergência de aumento de impostos a incidir sobre os vencimentos e transações de todas as famílias mais abastadas. Com esse dinheiro sem afetar um só tostão do orçamento, contratou milhares de recém-diplomados desempregados, como professores na educação pública.

Implementou-se a cobrança de impostos apenas no início da cadeia comercial de alimentos e bens consumíveis ou imóveis permitindo melhor controle, menor tributação, maior arrecadação e diminuir a “máquina” fiscalizadora.

Privou-se as Igrejas de subsídios estatais que financiavam exclusivas escolas privadas, e pôs em ação um plano para a construção de milhares de creches e escolas primárias, a partir dum plano de recuperação para o investimento em infraestrutura. nacional.

Criou-se um "bónus-cultura", um mecanismo que permite a qualquer pessoa deixar de pagar impostos se este se estabelecer como uma cooperativa e abrir uma livraria independente contratando, ao menos, dois funcionários a partir de uma lista nacional de desempregados.

Implementou-se uma efetiva política de controle de natalidade com resultados significantes já no primeiro ano de governo.

As escolas passaram a ensinar civilidade aos estudantes desde a tenra idade fazendo-os entender que o respeito ao outro, à coisa pública e a natureza são imprescindíveis para um bem viver.

Construiu-se dezenas de condomínios de casas populares com infra estrutura e transporte de qualidade para a população carente. Para ser proprietário de um desses imóveis o contribuinte se utilizaria de um financiamento específico oferecido pelo governo. Com isso as favelas foram retiradas dos morros e em seu lugar foi feito replantio de vegetação nativa recuperando cem por cento da área desmatada.

Lançou-se um processo que dá aos bancos uma escolha: Aquele que ofereça empréstimo bonificados às empresas do país que produzem bens; recebe benefícios fiscais. E aquele oferece financiamentos a custa de juros financeiros; paga uma taxa adicional.

Criou-se Projetos de incentivo a agropecuária com a garantia de compra dos produtos com no mínimo quinze por cento de lucro do que fora comprovadamente gasto na sua produção.

Acordou-se com as forças armadas de utilizar seu efetivo, equipamentos e máquinas, bem como seu conhecimento para abrir novas estradas e ferrovias para escoamento da produção.

Incentivou-se parcerias com empresas idôneas a fim de reformar e ampliar a malha viária permitindo a cobrança de pedágio, mas somente após a conclusão das obras.

Prendeu-se os corruptos e recuperou-se grande parte do que havia sido usurpado. O montante foi imediatamente direcionado a reforma das escolas e hospitais e construção de novos. Os imóveis foram colocados a leilão cujo resultado fora aplicado em saneamento básico.

Reformou-se os presídios aumentando o número de celas permitindo uma para cada quatro presos em contrapartida eles deveriam trabalhar produzindo parte de seu alimento, ou servir de mão de obra para os serviços em obras públicas, ou produzir itens cujo resultado da comercialização seria dividida sendo cinquenta por cento para o preso e o restante para o estado cobrir as despesas de manutenção dos presídios.

Aboliu-se o voto obrigatório.

Com essas e outras medidas o país tornou-se mais seguro, produtivo, com um povo educado, capaz e com elevado nível cultural e econômico. Os índices de saúde diminuíram sensivelmente com a erradicação de epidemias tais como a dengue e gripe suína; além de reduzir quase a zero a pobreza os acidentes, a mortalidade infantil, o número de moradores de ruas, etc.

Não conseguiram acabar a violência, mas reduziu-se sensivelmente seus índices.

Os primeiros funcionários começaram a chegar. Porteiros, garagistas, serventes, mensageiros, seguranças, copeiras e faxineiros. A maioria ainda no vestiário preparando-se para assumir suas funções.

Conversavam amenidades.

Os homens o assunto principal era a grande vitória do time de maior torcida sobre o seu maior rival. Mas o mais discutido era o novo uniforme com que o time se apresentou. As listras horizontais rubro negras estavam mais largas dando ao conjunto um ar de sofisticação. A estrela dourada sobre a de prata aliadas as outras seis vermelhas, mostravam suas últimas conquistas. Todos elogiavam enquanto vestiam seus uniformes de trabalho.


O almoço de domingo ou as peripécias amorosas eram os assuntos das mulheres enquanto se maquiavam, penteavam ou se vestiam.

Aos poucos cada um foi se dirigindo a seu posto de trabalho, enquanto as vozes iam se dissipando no ar.

O relógio da Matriz mais uma vez se mostrava. As poças de água da chuva lutavam contra a força do sol que começava a esquentar a manhã daquele belo dia.

As nuvens assim como a lua já haviam se retirado para o merecido descanso, após noite tão conturbada.

Os pássaros já eram ouvidos na busca do café da manhã enquanto revolviam as folhas derrubadas pelo casal que passara a noite dançando.

Apenas um segundo após a sétima badalada a morte se faz presente mais uma vez com um novo e longo grito.

A ficha policial estava preenchida e entre outros dados se lia:

TESTEMUNHA: Swelem da Silva.

CONDIÇÃO: Primeira testemunha a ver a cena do crime.

IDADE: 28 anos

SEXO: Feminino

PROFISSÃO: Faxineira

RELATO: “Cheguei ao prédio às seis horas da manhã e, como faço todos os dias após bater o ponto, fui tomar café na copa dos empregados que fica no subsolo próximo ao vestiário. Às seis e meia troquei de roupa. Mais ou menos às sete horas da manhã subi as escadas para começar o meu dia de trabalho. Fui direto ao terceiro andar, onde inicio. Faço faxina no terceiro e segundo andares. Outros fazem a faxina dos demais. Eu sempre começo a limpeza pela sala da doutora Joana e venho limpando as outras salas e o corredor até chegar na escada. Quando abri a porta e vi aquela cena horrorosa. Dei um berro e saí correndo. Só fui parar na portaria, onde alguns colegas me seguraram e após um tempo, consegui me acalmar.”

OBSERVAÇÕES COMPLEMENTARES: Mesmo termos perguntado diversas vezes, a depoente sempre respondeu não ter mexido em nada e que nem chegou a entrar na sala onde se encontrava o corpo. A testemunha relata que, devido a diferença de horários, sua ralação com a vítima era estritamente profissional. Limitava-se na solicitação de limpezas esporádicas provenientes de derramamentos de líquidos, farelos de lanche ou similares; ou substituição de sabonete e outros insumos do banheiro.

Não havendo mais o que acrescentar a testemunha foi liberada com os avisos de praxe.

VÍTMA: Joana Speller

IDADE: 36 anos

PELE: branca, porém bronzeada sem marcas a considerar.

CABELOS: louros, longos e lisos. Estavam soltos e despenteados.

OLHOS: azuis,

ORIGEM: Santa Maria, São José.

PARENTES; Filha única de pais falecidos.

PROFISSÃO: Advogada

CENA DO CRIME: A vítima encontrava-se sem roupas, deitada sobre as mesmas, de costas para o chão e com a perna esquerda dobrada aproximadamente trinta e cinco graus. O braço direito estava sob as costas. Os sapatos estavam virados de lado próximos a janela.

DESCRIÇÃO DOS FERIMENTOS:
Foram sei ferimentos sendo dois (1 e 2) no braço esquerdo, dois (3 e 4) no peito, um (5) no abdômen e um (6) na altura do ombro:

1 – 3 cm de comprimento, 1 cm de largura e 4 cm de profundidade;
2 – 3 cm de comprimento, 1 cm de largura e 4,5 cm de profundidade;
3 – 3 cm de comprimento, 1,5 cm de largura e 2 cm de profundidade;
4 – 2,5 cm de comprimento, 1,5 cm de largura e 2 cm de profundidade;
5 – 3 cm de comprimento, 2 cm de largura e 7,5 cm de profundidade;
6 – 2 cm de comprimento, 1 cm de largura e 2 cm de profundidade.

ARMA DO CRIME: O formato e profundidade dos ferimentos indicam que foram feitos por um instrumento perfuro cortante. Não foi encontrado na cena do crime nada que indicasse ser esse objeto.

OBSERVAÇÕES: A forma como o corpo foi encontrado e a presença de resíduos líquidos em suas partes íntimas indica que a vítima fez sexo antes do crime e não há outros indícios que indiquem não ter sido consentido. Não foram encontrados preservativos ou suas embalagens nem detectada a presença de sêmen.
Foi encontrada uma garrafa de champanhe, vazia e duas tulipas usadas. Elas foram levadas ao laboratório para análise.
As impressões digitais recolhidas foram enviadas para identificação. Não foram encontrados outros itens tais como cabelos, fiapos de tecido, restos de elementos consumidos, etc. que possam ajudar no esclarecimento do crime. Após as fotos de praxe o corpo foi enviado ao Instituto Médico para autópsia.

DATA E HORA DO CRIME: As impressões iniciais mostram que o crime ocorreu entre às 23:30 h do dia 07 de julho de 1937 às 01:30 h do dia seguinte, data deste Laudo Técnico Preliminar.

ÚLTIMAS PROVIDÊNCIAS: A sala teve janelas e portas trancadas, lacradas e a chave colocada a disposição da polícia para novas averiguações caso necessário.

ENCERRAMENTO: Encerro esse laudo técnico Preliminar ao qual serão anexadas as fotos e resultados de análises a receber, para elaboração do Laudo Técnico Definitivo.

EMITENTE: Tenente Eduard Mood.

DATA: 08 de julho de 1937.

A tarde caia lentamente lá fora. O sol se encaminhava para mais um descanso.

As pessoas começavam a deixar seus afazeres profissionais com destinos distintos.

Alguns iriam para casa, outros para o tradicional HappyHour das quartas feiras. Mas todos estavam chocados com o que havia acontecido naquela madrugada tempestuosa.

Não era um acontecimento corriqueiro como o fora há anos atrás por isso, a notícia se espalhara com rapidez e a controvérsia das informações gerava discussões eloquentes.

Mood estava cansado. Os depoimentos colhidos no local, não eram elucidativos e os elementos colhidos na cena do crime, a princípio, não ajudavam muito.

Passou no bar da esquina da Chefatura de Polícia para um trago relaxante. Apoiou-se no balcão e ali ficou por minutos fitando o segundo copo, com tequila pela metade.

Os dados colhidos voavam sem nexo por sua cabeça.

A investigação havia tomado todo o dia, não houvera tempo de ouvir os mais próximos da vítima. Isso seria feito no dia seguinte e o preocupava porque estava dando tempo para o assassino pensar.

Após o terceiro copo, pagou, deixou o troco e despediu-se de Samuel, o barman.


Saiu pela porta e olhou para cima como se medindo a temperatura, ajeitou o sobretudo e o chapéu e sumiu na escuridão fria da noite em direção a sua casa.

Seus pensamentos já estavam em quem iria encontrar em casa.


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O RETORNO


Em fim, voltei.

Não posso mentir e dizer que estava ruim. Já esteve, no começo era complicado.

Estar longe de casa, longe dos que gosto, longe do que gosto estava realmente sendo muito ruim.

Mas com o passar do tempo soube reconhecer as coisas boas da Terra da Garoa e mesmo não vivendo muitas delas aprendi que são incontáveis.

Resumindo, a ponta feia da Via Dutra tem seus atrativos.

Chegou o momento em que o pior era ir e vir. O ônibus, mesmo sendo leito e confortável, estava sendo uma tortura. Mas não era o ônibus e sim a espera para embarcar.

Em ambas as cidades saía lá pelas 23 e muito horas e aos domingos para ir e às quintas para voltar. Essa espera era muito ruim. No Rio ficava em casa vendo televisão, com muito sono. Em sampa era pior, pois ficava perambulando pela cidade fazendo hora, muitas vezes só.

E de cada uma dessas idas e vindas ganhava uma miniatura do ônibus da empresa. Guardei todas.


Estar lá não era ruim, jantava em restaurantes variados com amigos recém conquistados e riamos muito na troca de besteiras, brincadeiras e sacanagens. Em muitas noites sopa.


Hotel, pelo menos para mim, não era problema, ao contrário.

No trabalho o ambiente era muito bom. Relacionava-me muito bem com todos com quem convivia, com raras exceções e aqueles com quem não tinha convívio. O maior problema que tive foi definir a temperatura do aparelho de refrigeração de ar. Em alguns momentos quase rolou tapa.

Eu gosto de frio, portanto, quanto mais baixa a temperatura melhor. Mas havia os que sentiam muito frio e para eles eu dizia:

“Tá com frio, veste o casaquinho.”

Uns riam outros não, mas tudo numa boa.

Afinal resolver calor é mais difícil do que resolver frio. O primeiro, se for muito forte, não se pode tirar a roupa, mas no segundo é só “vestir o casaquinho.”

Estive trabalhando em três prédios da empresa Contratada e no último e definitivo as instalações não eram excelentes, mas eram suficientes.

São sete andares mais o térreo e cobertura que foi fechada para se tornar uma grande sala de reunião com equipamento de vídeo conferência.

Ali, em algumas reuniões, o pau come de verdade, mas em outras salas menores não era diferente. Natural pela magnitude do Projeto e vontade da galera.

Com exceção dos andares extremos, os demais têm cada um uma máquina de café. Com algumas opções, puro, com leite, longo, curto, etc., o produto que elas oferecem pode ser tudo, menos café.

É ruim bagarai!

Tanto que nós os técnicos do cliente, a fiscalização que fica no quarto pavimento, pedimos e conseguimos uma garrafa térmica com café normal renovado quatro vezes ao dia.

É feito a moda antiga, no “cuador”, como o paulista gosta e como muitos deles acham que no “cuador” é mais forte; assim ficou.

A solução foi pedir uma garrafa com água quente para enfraquecer o café forte de sampa.

O quarto andar, talvez por ser o nosso, clientes, é mais agradável e com o mobiliário mais claro, combinando com a tinta das paredes, parece ser mais amplo. Portanto, parece ser mais bem cuidado.

Minha estação de trabalho tinha uma CPU com dois monitores o que permitia “abrir” vários arquivos ao mesmo tempo, com maior conforto visual. A única personalização que fiz foi agrupar as 119 miniaturas do ônibus da empresa em que viajava. O resto era igual para todos.


Mas o que mais deixou marcas foram os amigos e momentos em que passamos juntos. São poucos, mas sinceros recém conquistados amigos.

Foram papos em torno de mesas de bares e restaurantes. Bebendo socialmente ou com certo exagero, mas sempre com muita festa. Degustamos desde pasteis e pizzas,


até espetinhos diversos.


A ida à Arena Barueri ver o Mais Querido foi um marco.


São a parte boa disso tudo que vai deixar saudades.

Mas recebi uma boa proposta e como era para voltar para casa não pensei duas vezes e escrevi o seguinte texto como despedida:

Não sabia como começar.

Pensei em plagiar nosso ex-presidente e iniciar com:

“Brasileiros e Brasileiras”

Mas no Projeto tem muitas nacionalidades, em ordem alfabética para não iniciar uma terceira guerra mundial; americanos, brasileiros, chineses, italianos, japoneses e provavelmente outros que nem sabemos.

Então resolvi ir pelo tradicional:

Senhoras, Senhores, Senhoritas e “Senhoritos”,

É chegada a hora.

Após um pouco mais de dois anos tenho que partir.

Os motivos não são os de costume:

- Não estou insatisfeito com o trabalho;
- Não acho que ganho pouco (mas também não é muito. Hehehe!);
- Não arrumei confusão com chefe ou colega;
- Não recebi uma proposta melhor;
- Niente.

Apenas, devido a desmobilização que está havendo no Rio de Janeiro, não mais será possível sair de Sampa e trabalhar na Cidade Maravilhosa nas sextas, como vinha fazendo.

Como muitos sabem, se eu voasse não haveria problema, mas infelizmente, após anos tentando (voando Brasil adentro), não consegui me livrar e o medo que não me impedia de fazê-lo tornou-se pavor e hoje, mesmo achando voar o máximo, não piso dentro de um avião nem por milhões.

Ops! “Guenta” aí! Por milhões eu penso duas vezes. Ok?.

O racional sabe muito bem que o avião é o 2º meio de transporte mais seguro, o 1º é o elevador (eu já acho o navio), mas o emocional, nesse caso, venceu de goleada, sem acréscimos nem roubo de juiz.

Fica muito desgastante fazer essas idas e vindas de ônibus, como vinha fazendo até agora, mesmo sendo ônibus leito. Saía domingo à noite e voltava sexta de madrugada. Mas estava conseguindo e não estava sendo tão ruim assim, afinal Sampa tem seus atrativos. Mas de domingo à sábado a coisa complica.

É meu problema, vocês com certeza têm os seus.

Vida que segue.

Em tempos de frases de efeito vou citar uma do célebre filósofo croata, Jay Tho Hindu:

Antes uma breve história:

Jay seria um excelente terrorista, treinou muito para se tornar um dos melhores e por isso o mais querido entre seus iguais. Assim foi até que na sua primeira missão descobriu que tinha medo de avião. A missão foi um fracasso. Tornou-se lenda entre os seus ao proferir as palavras abaixo, após as quais rumou para as montanhas e nunca mais foi visto.

اجنحة ليطير مع تكون قد ولدت كان لي أن إذا”

Traduzindo, segundo o Google:

“Se fosse para eu voar teria nascido com asas.”

Todos sabem que o Flamengo é o Mais Querido e mais odiado, sendo assim, mexe com 100% da população deste enorme Brasil.

35% sofrem quando o Flamengo perde e 65 % (a Torcida Arco-Íris, invejosa e mal vestida) ficam felizes. Desta forma, no inverso é o inverso.

Com a minha saída será parecido, mas não de forma tão contundente, todos ficarão felizes.

Antes de acharem que estou perdendo o juízo e me achando “o cara”, explico:

Alguns gostarão por saber que vou ficar feliz em poder ir para casa todos os dias e estar com meus filhos e cachorro que tanto fazem falta por aqui em Sampa. Outros, pelo fato de eu estar saindo do Empreendimento.

Tudo bem, é natural, se nem Zico, Garrincha, Pelé ou Perna Longa foram unanimidade, quem sou eu, cara pálida, para ser? O importante é que todos estarão felizes e o mais importante eu também.

Pra onde eu vou?

Continuarei na Petrobras embora em outro empreendimento. Não vou falar que será um novo desafio, essas coisas, pois vou fazer o mesmo que faço em quase 10 anos da casa.

Além do local, o que permite rever antigos amigos mudará as pessoas e isso será ótimo por proporcionar novas trocas e conhecimentos.

Quando lá chegar, o que poderei dizer com relação a isto é:

“Cheguei para me integrar da melhor forma com a equipe para assim formarmos um team e sinergicamente rumaremos para um grandioso fim de Projeto quando atingirmos a dead line.”

Traduzindo (desta vez sem o Google):

“Vim para somar, vou trabalhar bastante para conquistar com humildade meu espaço no time e assim fazer os gols que nos levem ao título.”

Acho que já ouvi isso em algum lugar. Rsrs!

Claro que não há como esquecer os que vão ficar. São pessoas, algumas com quem não tive nenhum contato a não ser bom dia, boa tarde ou tchau, outras contato apenas profissional e outras, profissional e social.

Algumas ótimas para trabalhar, outras ótimas para um bom papo à mesa de um bar, outras para ambos e outras nem tanto. Normal para um universo tão amplo de opções.

A todos agradeço e desejo sorte e sucesso.

Há os que gostaria de mencionar, mas tenho receio de ser injusto e esquecer alguém (também já ouvi isso).

A esses(as) fica meu agradecimento especial e a vontade de rever por aí. E já que são ótimas para beber, que seja à uma ENORME e REDONDA mesa de bar para que possa caber tanta gente.

Bom pessoal é isso. Tentei sair da mesmice ao escrever essas palavras, espero ter atingido meu objetivo sem fazer mais inimigos, rsrsrs!

Meus novos contatos? Devido aos trâmites internos de transferência, ainda não tenho esses dados, só tenho os dados particulares que por serem particulares seria incoerente distribuir no trabalho. Certo?

Como estarei fora do ar criei uma conta no GMail para esses contatos qualquer coisa sejam bem vindos:

xx.xxxxxxxx.xxxxxxx@gmail.com

Assim que tiver conhecimento dos dados profissionais definitivos, será um prazer divulgar.

Mas se mesmo assim vocês não quiserem esperar podem ler outros textos e até mesmo algumas besteiras que escrevo em:


Estou até pensando em colocar esse texto lá.

Passando por lá, estejam livres para comentar, elogiar ou criticar, mas sejam sinceros. Lá pode até dançar homi com homi e muié com muié, mas não pode xingar a mãe. Os comentários são moderados.

E para finalizar, mantendo a onda que vemos há alguns anos, pelos diversos meios:

- e-mails;
- Facebook;
- Orkut (para quem ainda tem isso);
- Twitter; - MBAs,
- Pós, Mestrados, Doutorados;
- Etc.

Na utilização de frases de efeito para ilustrar cases, e afins, deixo duas que norteiam há muito meus passos.

“A inveja é uma merda.”

&

“Viva a vida intensamente, você não sairá vivo dela.”

Forte abraço e até breve,

E então cheguei a Cidade Maravilhosa. A saudade, mesmo voltando todo fim de semana, era grande. Tanta que até hoje @Boris Stafford demonstra certo sofrimento quando saio de casa sem ele.

De meus filhos sei que não é preciso escrever nada. Estou com eles sempre que posso matando a saudade que ainda aperta meu peito.

E foi na última sexta ainda na rodoviária aguardando meu último ônibus leito que recebi a pior notícia da minha vida.

Meu filho havia sofrido um sério acidente de carro indo para Búzios com amigos. E, até saber que haviam escapado ilesos dessa tragédia, sofri durante oito horas até reencontrá-lo inteiro, são e salvo saindo do banho na casa de sua mãe.

Foi foda.


Hoje ainda me encontro em processo de readaptação, não à Cidade Maravilhosa, pois à ela não é necessário me readaptar e sim á vida que pretendo levar daqui para frente.

Hoje, no metrônibus reparei que as pessoas estavam ligadas em seus celulares entretidas lendo e-mails, ou no Face book ou sei lá mais o que. E olhando pela janela vi passar despercebido o Parque Lage, o Corcovado, as árvores da Rua Voluntários da Pátria e outras maravilhas que a cidade tem.

E ratifiquei uma decisão tomada há alguns meses:

Pretendo não esquentar a cabeça por antecipação e só vou fazê-lo se realmente for necessário. Vou procurar fazer com que a família esteja sempre em primeiro lugar e meio que deixarei a vida me levar, mas não tanto.

Espero que façam o mesmo.

Até o próximo.

domingo, 19 de agosto de 2012

1º CAPÍTULO – A MORTE


Fim de tarde.

O sol caindo de sono após um dia movimentado, procurava entre as montanhas do horizonte um local para se deitar e recuperar as energias, mesmo sendo outono.

O ano? 1937.

O vento bailava platonicamente carregando no colo as poucas folhas secas e grãos de sujeira que insistiam em permanecer sem rumo pelas ruas quase desertas.

A temperatura caía a medida que os segundos passavam. O tic tac do relógio da torre sul da igreja matriz se fazia presente cada vez mais forte a cada grau subtraído no termômetro da farmácia da esquina.

Era o silêncio da noite chegando sorrateiramente tal qual uma onça faminta espreitando sua preza.

No mesmo ritmo o orvalho, como fazia todas as noites, perdia sua timidez e se mostrava sobre as amuradas e calçadas da cidade.

O corre corre do dia dava espaço a noite cujo véu se tornava mais negro e pesado a medida que as nuvens de tempestade se acumulavam. 


Ela ainda permanecia em sua sala. Absorta entre os diversos volumes de livros e processos que faziam sua enorme mesa, esculpida em madeira de lei escura, parecer uma trincheira de guerra.

Era um famoso escritório de advocacia e por isso ocupava todo um andar daquele prédio de arquitetura centenária.

Apenas quatro andares servidos por uma fria e escura escada de granito preto e corrimão trabalhado em latão dourado. Era larga no térreo e ia se estreitando a medida que atingia a recepção do primeiro andar. Daí em diante se mantinha com o seu metro e meio de largura.

As enormes e antigas luminárias, de beleza inigualável não eram suficientes.

Deixavam, para alguns, uma sensação de insegurança e para outros, medo. Sensações quebradas apenas pelo barulho do movimento das pessoas que transitavam a cada dia de trabalho.

A fachada em argamassa industrial possuía ornamentos diversos que mostravam a irregularidade do ecletismo das várias fases ali representadas e era cinza.

As imponentes colunas do térreo, também em granito preto, que guarneciam o enorme portão de metal dourado formavam o conjunto mais significativo, mas eram as gárgulas que, como guardiões, ocupavam a empena do último andar, que faziam as sombras que aterrorizavam os poucos que ousavam transitar pela rua em hora avançada.


Com paredes forradas de madeira e piso de tapete, ambos mofados, o longo corredor espremido pelas diversas salas que compunham o terceiro andar, tinha no seu final a única sala ainda ocupada.

Escassos relâmpagos eram vistos no céu, em uma tentativa infrutífera de dar alguma luz a aura de medo que se formava.

As árvores quase despidas pela força do outono dançavam como esqueletos, ao sabor do vento que se tornava cada vez mais forte.

Seus cabelos dourados que emolduravam o rosto esguio estavam levemente despenteados pelo passar das horas. Os lábios ainda vermelhos sob o nariz afilado e olhos azuis eram sistematicamente umedecidos pela língua a cada virar de página do enorme volume do processo objeto do estudo do momento.

Lá fora os personagens noturnos começavam a se mostrar sem receio. Eram mendigos, drogados, bêbados e pequenos ladrões, entre outros moradores de rua.

Alguns se escondiam do frio como podiam, sob as marquises dos prédios, cobertos com panos ou jornais velhos. Outros perambulavam revirando o que podiam ou a ermo ao sabor das drogas pelas quais cometiam seus delitos.

Tinham origem no mundo ou em alguns quarteirões vizinhos movimentados pelo embalo dos restaurantes, bares ou outros estabelecimentos de diversão, onde esmolavam importunando os fregueses.

Mas aqueles não!

Àquela hora era um conjunto de quarteirões desertos que faziam parte da periferia do centro da cidade que horas antes fervilhara ao sabor da economia.

O lixo já estava espalhado nas calçadas pelos mendigos famintos.

Alguns poucos cães uivavam e latiam em intervalos incertos.

Vestia um conjunto verde escuro cujo paletó pendurado atrás da porta passara o dia sobre uma branca blusa de seda com gola de renda da mesma cor.

Desabotoados, os dois primeiros botões deixavam a mostra um colar de pérolas e parte de seus rijos e belos seios ainda deliciosamente queimados pelo sol das férias passadas em um país tropical, semanas antes.

A saia comportada era justa o suficiente para marcar a sua cintura e deixar transparecer as formas de suas longas e belas pernas. Esse conjunto de atributos fazia seu corpo ser desejado por muitos, conhecidos ou não.

O cintilar de cada relâmpago era dissimulado pelas cortinas e não a incomodavam.


O vento aumentava sua fúria e já começava a interrompê-la.

Levantou-se e sem esboçar reação devido ao estágio de transe em que se encontrava pela história do processo; fechou a janela e retornou ao que a consumia.

As gotas do orvalho aumentavam de tamanho transformando-se em chuva. A dama que o vento aguardara e passava a conduzir em sua interminável dança. Juntos transformaram-se em tempestade como se em êxtase e iniciaram um ritual de açoite à vegetação, paredes e janelas do centro e bairros vizinhos; iluminados pelos clarões emitidos pelos raios que agora discursavam em forma de trovões.

Os gatos, que há pouco se divertiam correndo atrás dos ratos a fim de se alimentar, já estavam escondidos sob os carros estacionados. Os ratos que sobraram da caçada encontravam-se salvos nos bueiros e galerias mal cheirosas, junto com as baratas.

O carro cinza chumbo parou do outro lado da calçada. Apagou os faróis e aguardou por alguns segundos e sem mais nem menos partiu em direção a avenida principal sumindo sob o véu da chuva que permanecia forte.

As dez badaladas do relógio da torre sul da igreja matriz quebraram o ritmo da noite mostrando a hora.

Sem muito mover a cabeça, ela ergueu os olhos fitando o relógio na quinta prateleira da estante cheia de livros a sua frente. Estava sete minutos atrasado. Ela sorriu discretamente e voltou os olhos para o texto.

Contava a história de vários assassinatos cujos familiares das vítimas eram clientes do escritório e ela fora designada para representa-los. Para isso contava com o apoio de sete profissionais: dois advogados, três estagiários, uma secretária e um ex-policial.

Cada um tinha suas peculiaridades:

Um dos advogados, já de certa idade, tinha sido um dos mais renomados do país, mas era suspeito de ter participado de um golpe milionário até então não esclarecido e para não aumentar as suspeitas continuava advogando como consultor sob a desculpa de não querer se aposentar.

O outro era outra, uma belíssima morena de olhos negros e corpo escultural. Misteriosa, simpática, solícita e excelente profissional que pertencia aos quadros da empresa há sete anos. Mas nutria certo ciúmes de sua chefe, ha menos tempo na empresa, por se achar tão ou mais capaz. Apesar de seu profissionalismo, nunca tivera clientes para representar.

Como todos os estagiários, o casal deste escritório era tratado quase como escravos. Além das tarefas normais da profissão eles eram obrigados a cumprir outras como servir café, comprar o lanche quando havia trabalho noturno, etc. Mas tinham uma especial consideração a sua chefe pela deferência com que eram tratados por ela.

Apenas ela os tratava com decência.

A secretária era uma senhora muito simpática e eficiente. Bastante ágil em detrimento de sua avançada idade. Nutria por sua chefe um ódio mortal em função de um caso em que havia sido condenada injustamente a sete anos de reclusão. Sua chefe havia sido a advogada de acusação. Não era reconhecida devido as inúmeras plásticas que fora obrigada a fazer consequência do crime do qual havia sido acusada.

Aposentado fazia sete anos, o policial havia sido o exemplo da corporação, com várias condecorações pelos serviços prestados. Em seu penúltimo caso havia matado o assassino de uma jovem após ter se rendido. Ele não sabia, mas o assassino era amante de sua atual chefe e ela sabia das condições em que ele havia sido morto.

Os sons emitidos pela noite foram sumindo com o andar dos ponteiros do relógio. Os cachorros e gatos dormiam assim como os demais habitantes das ruas que se tornaram desertas e frias.


Permanecia apenas o bailar do vento com a chuva. Até o incessante som do tic tac do relógio da torre sul da matriz era inibido por esta dança.

Os raios já não eram vistos nem ouvidos.

Tudo parecia normal para uma tempestuosa noite de outono.

O vulto permanecia encostado na esquina, sob uma pequena e velha marquise que além de abriga-lo parcialmente da chuva, o fazia invisível.

Olhou para o relógio, fez cálculos por segundos, jogou fora o resto do segundo dos cigarros que fumara desde que havia saltado do carro cinza chumbo trinta e sete minutos antes e iniciou sua caminhada em direção aos fundos do prédio de argamassa cinza.

Sem fazer barulho ele danificou e abriu a fechadura da porta de ferro corroído pelo tempo e humidade. Encostou-a permanecendo do lado de fora.

A silhueta do vulto mostrava seus esguios metro e setenta e sete centímetros.

Vestia camisa, preta sob um longo sobretudo, sapatos e meias da mesma cor. Luvas de couro, também pretas, com as iniciais JS gravadas em baixo relevo no dorso, cobriam suas longilíneas mãos. Seu rosto estava coberto pela sombra do capuz.


Deu a volta até chegar à frente do prédio. Subiu os três degraus de acesso e com a chave cujo chaveiro de ouro reluziam as mesmas letras JS, abriu o enorme portão de metal dourado ladeado pelas colunas de granito preto.

Olhou rapidamente para os dois lados da rua há muito deserta e entrou fechando mansamente o portão às suas costas.

Ele estava calmo. Não era a primeira vez que se encontrava nesta situação. Havia planejado minunciosamente todos os passos e não vislumbrava nada que pudesse atrapalhar seus planos.

Mas permanecia atento. Não poderia vacilar.

Correu os olhos pelo ambiente como se procurando algo. As poucas luminárias acesas prejudicavam a visão. Essa falta de iluminação aliada ao piso e paredes escuras davam ao imenso hall de acesso uma atmosfera de insegurança.

Não havia quadros. Apenas um sofisticado, porém velho e mofado papel de paredes com tema floral decorava o ambiente.

O duplo pé direito do ambiente, aproximadamente quatro metros e meio, fazia com que seus passos ecoassem, intensificando a sensação de medo.

Do lado direito o balcão de alvenaria com detalhes em granito e latão dourado era o elemento de destaque.

Do outro lado o elevador com portas pantográficas aguardando o retorno da empresa de manutenção para voltar a funcionar.

Estava parado havia sete meses.

Os degraus foram consumidos um a um enquanto ele contava os segundos planejados.

A chuva caía como se chorando a ausência do vento que há pouco a deixara só na pista de dança. As lágrimas eram grandes, constantes e pesadas o suficiente para produzir um som forte e alto. Estava desesperada.

As poças já eram enormes e pareciam afogar grande parte das ruas e elementos urbanos ali presentes.

O vulto, como planejado, chegara à porta da última sala do corredor do terceiro pavimento exatamente às vinte e duas horas e cinquenta e sete minutos. E ali permaneceu imóvel.

Os gatos, mesmo correndo o risco de se molhar, haviam escalado muros para se abrigar da chuva torrencial, encolhidos sob objetos diversos.

Ela ainda absorta em sua leitura e anotações já mostrava sinais de cansaço. Mas não podia se entregar ao capricho de um simples cochilo. A audiência decisiva para aquele processo seria no dia seguinte.

Sobre a confortável poltrona ao lado repousava sua valise com as roupas e assessórios que usaria neste evento. Um discreto taier cinza chumbo, uma blusa cinza claro, meias pretas assim como a ousada lingerie e sapatos salto dez. a maquiagem seria discreta como o perfume.

Atrás da terceira porta à direita de quem adentra o corredor estava o banheiro aonde iria se trocar, se maquiar e se pentear.

Enquanto, com um leve movimento da cabeça, retornava os olhos para seus textos, com um leve sorriso, se assustou com a súbita abertura da porta segundos após a décima primeira badalada do relógio da torre sul da matriz.

Mais uma vez levantou a cabeça, desta o fez rapidamente e o brilhante sorriso demostrava que gostara do que vira.

Seus olhos brilharam e seu coração disparara ao reconhecer sua secreta paixão.

O terceiro e demais botões da camisa de seda foram arrancados bruscamente assim como o resto de suas vestes. Ela se entregou aos carinhos do vulto após este também se despir e mostrar seu corpo.

Amaram-se como sempre, com fervor e amor indescritível, acompanhados de leves doses de champanhe gelada que já os aguardava entre pedras irregulares de gelo em um balde de prata.


Foram trinta e sete minutos de sexo intenso após os quais conversaram amenidades deitados sobre suas roupas agora estendidas a fim de protegê-los do frio do piso.

Ela se virou e ele levantou-se sorrateiramente.

As badaladas do relógio da torre sul da Matriz já estavam no ar. Ele tirou do congelador do frigobar junto ao sofá que havia sido um dos protagonistas de seu amor, uma ponteira moldada em gelo.

A chuva, chorosa, havia ido embora. O frio já consolidado que com a saída do dos bailarinos seria o guardião da noite.

As nuvens se afastavam e a lua cheia era vista ofuscando as estrelas que ousavam aparecer. Pequenos morcegos iniciavam sua caça enquanto poucas e afinadas corujas faziam seu recital.


Os gatos deixavam seus esconderijos, assim como poucos ratos, mas os cães permaneciam deitados com suas orelhas em pé como se esperando algo.

Na décima segunda badalada, enquanto o último dos raios gritou a última palavra de seu discurso, ele a estocou com a primeira das sete vezes que faria e o grito da morte foi longo agudo e ensurdecedor.

Depois consumido pelo barulho do silêncio da noite

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