27 de out. de 2011

19º E 20º DIAS – FLORIPA – SC – CAMBORIÚ – SC – SÃO PAULO






Fui dormir com uma má notícia. Sei que não é legal, mas não tinha como resolver na hora. Tinha que esperar amanhecer e foi o que fiz. Mesmo chateado consegui relaxar e acabei dormindo bem.


Após o café da manhã entrei em contato com o 0800 e em 45 minutos minha companheira de viagem estava sobre um reboque. Diagnóstico:

“Pneu traseiro furado.”







Chegamos à concessionária de Floripa às 10:00 h. Fomos muito bem atendidos:

“Como pode se usei a vacina contra furos, paguei uma grana nessa merda para nada?”

“Pois é, fazer o que?”

“Ok! Leva pra dentro.”

E em APENAS 06 horas estávamos saindo. Um absurdo! Concordo, mas foi como aconteceu. Quando chegar no Rio resolvo o que fazer com relação a esse problema e o ocorrido em Porto Alegre.

Mas na realidade, foi bom isso ter acontecido. É aquela coisa que muitos dizem e eu já estou começando a acreditar:

“Tem males que vêm para o bem”

Foi assim com a não ida as Cataratas do Iguaçu, a não ida ao Uruguay, com a moto em Porto Alegre e Floripa e outras coisitas mais que não contei. Só não sei qual foi o bem que veio com o roubo de meu celular.

O objeto causador do problema foi um enorme parafuso que até agora, devido ao tamanho e ao fato de não ficar em pé, não sei como “entrou” no pneu. Para mim foi colocado de propósito.


Durante a conversa inicial com o chefe da oficina ele me mostrou o quão gasto estava o pneu traseiro. Eu já sabia, mas pensava que daria para chegar ao Rio. Ele me mostrou que não daria nem para chegar a Curitiba, quanto mais ao Rio. E ele tinha razão, em alguns pontos já estavam aparecendo os fiapos da lona.

INFORMAÇÃO TÉCNICA – O pneu de moto não tem a banda de rolagem igual a do pneu de carro. Esta é paralela ao chão e se bem calibrado, balanceado e alinhado tem o desgaste homogêneo. A banda de rolagem do pneu de moto é uma meia cana, portanto tem o desgaste maior na parte de maior contato com o solo ficando as laterais da meia cana menos desgastadas, induzindo ao leigo uma análise errada da situação do pneu. Era o que eu estava fazendo.

Resultado, autorizei a troca do pneu e com isso minha companheira de viagem, como mulher que é, ficou muito feliz com o sapato novo.

Após a maratona e manhã perdida, o que me fizeram perder o tempo que iria gastar conhecendo as demais praias da ilha, não me restou alternativa a não ser comer alguma coisa. Eu já havia almoçado. Sem muitas opções, um filé de frango a milanesa com um arroz maluco, meio safado.

Já estava com fome novamente.

Resolvi extrapolar. Eu merecia. Fui até a Lagoa da Conceição, escolhi um bom restaurante e pedi uma porção de camarões e outra de lulas; ambas estavam maravilhosas assim como a cerveja, geladíssima.


Voltei ao hotel para um bom banho e iniciar a arrumação das coisas para a partida de amanhã.

Deixei quase tudo pronto. O que não ficou pronto, pois seria usado na manhã seguinte, ficou engatilhado. Liguei a televisão para fazer hora.

Acordei às 05:45 h e me dei conta que perdi a noite de Floripa. Paciência, outras virão.

Café da manhã, óleo na corrente e tudo pronto. Chuva fina, resolvi arriscar e não pus a roupa de chuva. Ela aumentou, diminuiu, aumentou novamente e foi embora para não mais voltar. Em seu lugar veio o sol. Tímido, mas dando a certeza que não nos deixaria mais.

Passando pela entrada de Camboriú lembrei que algumas pessoas falaram muito bem de lá. O que eu via da estrada era desanimador. Prédios enormes, alguns com mais de 20 andares e por segundos questionei se deveria ver. Resolvi entrar para uma olhadinha.


Horrível! Desculpem-me os Catarinas, mas parece uma Cabo Frio piorada. Dei meia volta e segui rumo a Curitiba.




A estrada estava ótima, duplicada com poucos pontos em manutenção. Fiz as paradas necessárias para o café e as barras de cereais. No meio uma pequena serra com curvas de raio longo, muito agradáveis, mas nada de especial.

De vez em quando eu fazia um zigue-zague a fim de “gastar” as laterais do pneu.

Faltando uns 60 Km para chegar em Curitiba resolvi comer um queijo quente. A atendente abriu um pão Francês, passou manteiga e colocou as bandas viradas pára a chapa quente. Ao lado colocou três fatias de queijo Prato para derreter. Pedi para deixar até torrar tanto o pão quanto os queijos. Matei a saudade do meu queijo quente preferido. Estava ótimo.

Eram 10:50 h, era cedo. Resolvi não parar em Curitiba. Já vinha pensando nisso desde o roubo do celular.

Parece que as entidades estavam aguardando ansiosas essa decisão. Assim que tomada o sol resolveu se soltar. E o fez como uma franga há muito trancafiada a oito (sete é conta de mentiroso) chaves em um armário de mogno encerado. Nesses tempos “apológicos” onde em tudo que é lugar aparece uma, o sol não iria se fazer de rogado.

Veio forte e serelepe e nos acompanhou até o final do trajeto.

A decisão se confirmou ao passar rápido e rasteiro pelo acesso a Curitiba para então adentrar a mal fadada e mal falada Regis Bitencourt.

Foi uma grata surpresa verificar que, pelo menos no início da tarde a Regis não é mais a Rodovia da Morte. Com exceção após a serra, próximo a São Paulo (aproximadamente 70 Km) onde tem tanto movimento que não dá para correr muito o que diminui os riscos, no resto ela é toda duplicada com asfalto de boa qualidade e em alguns momentos tem até três pistas para cada lado.

A serra sinuosa e agradável nos trouxe recordações de bons momentos recentes, mas por ser curta durou pouco.

Antes da última parada, faltando uns 60 km tudo estava parado. Nada se movia. Espiava a pista de volta repleta de enormes caminhões, olhava para o lado do acostamento estava entupido como uma segunda fila. Eram poucos os carros tanto os parados na minha fila como os que vinham em direção contrária. Isso me assustava. Estaria preso?

Nos intervalos dos que vinham eu conseguia ultrapassar os que estavam parados. Em alguns momentos conseguia passar entre aqueles da minha pista.

Consegui evoluir. Não marquei, mas foram bem mais de uns 03 quilômetros. Tudo parado e eu aos poucos entre aqueles monstros enormes consegui chegar na frente. Um caminhão havia tombado deixando sua carga (centenas de chapas de madeira compensada) espalhada pela pista.

A pista a nossa frente estava, em fim, livre e minha companheira, como se sedenta por emoção, respondeu de imediato meu comando liberando seus quase 90 cavalos a galopar pela pista. Agora a que vinha é que estava parada.

Mais 40 minutos eu estava em São Paulo. Não sabia ao certo o endereço, estava no meu I-Phone roubado. Sabia o Bairro, após me informar segui em sua direção. Lembrei da rua, mas não do número. Mas sabia que era o primeiro prédio a direita no sentido do trânsito.

Mais uma vez, desta vez com um motoboy, me informei. Segui-o como um deles pelas ruas repletas da cidade. Minha companheira é maior, mas não ia perdê-lo de vista tão facilmente. Ela entendeu e se encolhia entre ops retrovisores. Chegamos sãos e salvos.

Estou no quarto, ar refrigerado ligado, de banho tomado e após ter degustado um Beirute dos deuses me despedindo neste texto.

“Até o próximo, que pode ser o último desta viagem.”

25 de out. de 2011

16º, 17º E 18º DIAS – CAXIAS – RS – GUARDA DO EMBAÚ – SC






Acordei sob a ressaca da noite anterior. Nada demais. Foi até light, mas era uma ressaca.


Passei a manhã escrevendo e vendo filmes na TV. Lá pelas 13:00 h resolvi pensar no almoço e liguei para César do casal que mora em Bento Gonçalves e fomos almoçar em um bar no caminho de Vacaria.







Temático por motivos náuticos, faz parte de um pequeno complexo turístico com várias atrações como: tirolesa, parede de escaladas, uma estufa onde são cultivados morangos hidropônicamente, entre outras atrações. Tudo espalhado em uma espécie de chácara e muito bem cuidado.





Eles pediram sorvete, pois já haviam almoçado, eu pedi um sanduíche chamado “Me Agarra Carolina”. Não lembro se era a Carolina que ia me agarrar ou se seria outra mulher; só sei que estava uma delícia.

Não lembro os ingredientes, falha indesculpável, concordo, mas fazer o que? Só lembro que ficavam todos entre duas finas massas de panquecas encimadas por quatro rodelas de azeitonas verdes.


Isso tudo com azeite e um suco de morangos hidropônicos formaram uma combinação fantástica.

O papo foi ótimo e próximo das 18:00 h partimos cada qual para o seu destino. O meu foi o bar no Centro onde os Flamengos se reúnem. Fui ver o injusto empate do Mais Querido com o Santos. Oram duas Originais estupidamente geladas.

Fim de jogo, retornei para casa onde Marcelo e esposa já estavam de volta. No meio do papo decidimos ir jantar em uma hamburgueria de nome Juventus cujo mascote é o Dudu aquele que é viciado por hambúrgueres amigo do Popeye.

No meio do papo Marcelo informou que além de hidropônicos os morangos são cultivados ao som de Rock’n Roll. Fantástico. Está explicado porque o suco estava ótimo.

Soube também que se pode encomendar com 03 dias de antecedência e por R$ 125,00 um hambúrguer composto de:

01 Kg de pão;
15 Ovos;
Sei lá quantos tomates, alfaces e cebola;
Etc.

Imaginem.

Dormi cedo a fim de sair cedo para Floripa.

Não consegui. Estou mal acostumado acordando tarde desde que cheguei a Caxias do Sul.

Só cheguei na estrada às 08:30 h.

Voltei por onde cheguei, a estrada de acesso as serras gauchas. Curvas insinuantes em declive e pistas quase perfeitas. No começo me enrolei em algumas delas, mas logo eu e minha companheira de viagem entramos em sintonia. Foi mágico.


O planejado era voltar até Lages, descer a Serra do Rio do Rastro (novamente) e seguir para Florianópolis. Seriam mais 70 quilômetros, aproximadamente, mas valeria a pena. E como valeu. Foi melhor por ser 2ª feira, a estrada estava vazia; indescritível!

Daí até a BR 101 foi meio monótono, a estrada tinha curvas, mas o asfalto não era dos melhores e estava cheia.

Entrando na BR 101 fiquei impressionado. Duas pistas para cada sentido e um canteiro central de aproximadamente 1,50 ml.


Já estava me arrependendo de não ter ido por ela antes até que começou um engarrafamento. A pista dupla transformou-se em única e o canteiro central foi substituído por tachões amarelos. A minha frente um enorme caminhão, na pista à esquerda (sentido contrário) vários outros e poucos carros. A pista do lado direito estava sendo consertada. Não era um canteiro de obras organizado como muitos que vi nessa viagem. Era uma zona generalizada colocando em risco todos os motoristas.

Minutos depois, tudo voltava a ser como era, duas pistas para cada sentido e um canteiro central de aproximadamente 1,50 ml, etc.

Minutos depois a zona imperava.

Após vários trechos nessa bagunça cheguei a entrada de Garopaba. Liguei para meu irmão (amigo de fé) para saber os contatos de sua irmã (estava tudo no telefone roubado) que mora na região.

Mais alguns quilômetros na BR 101 até chegar na entrada da Guarda do Embaú. 08 quilômetros de paralelepípedos depois, chego ao Centro. Um lanche na padaria onde descobri o endereço.

Ela não estava. Me instalei na pousada de sua cunhada e fui dar uma volta na praia.


Claro que estava tudo diferente de há 20 anos. Muitas casas e até um prédio de 04 andares; uma pousada. Soube depois que o dono se arrependeu. Se arrependeu, mas não vai derrubar. Assim é mole. Hehehe!

A praia, apesar de informações contrárias, estava igual há 20 anos. Entrei em uma trilha à esquerda até outra praia. Percorri a areia e peguei outra trilha desta vez subindo até o topo do morrote que separa a praia do mar aberto.









Muitas pedras, as ondas batendo com certa força, muito bonito. Fique ali me acostumando com o mar. Havia passado muito tempo longe dele; eu estava com saudades.










Voltei para a pousada, encontrei com Alexandra. Conversamos muito, relembramos sua infância e minha adolescência (nossa diferença é razoável), as bagunças que fazia com nosso irmão e rimos bastante. Ela me mostrou sua casa em obras e continuamos no papo dessa vez seu marido, Adriano, estava conosco. Muito gente fina.

Depois um banho quente e demorado. Um lanche e fui dormir o sono dos justos. Estava muito cansado.

06:30 h acordo com o despertador. Banho rápido, coisas na moto, papo rápido com o Adriano e pé na estrada.

Pouco mais de 20 quilômetros cheguei em Floripa. Um trânsito infernal, a cidade enorme com prédios altos; um susto. Queria tirar uma foto, mas não tinha como parar.






Foi fácil chegar ao hotel. Tinha vaga. Deixei as coisas e rapidamente desci para uma volta pelas praias do noroeste, norte e nordeste da ilha.




Na bela e movimentada beira mar a arquitetura eclética impressiona em alguns casos. Outros não.










Caupé, Sambaqui, Daniela, Jurerê, Cachoeira do Bom Jesus, Canasvieira, Ponta das Canas, Brava, Ingleses, Santinho, Barra da Lagoa, Mole e Joaquina.










As do sudoeste, sul e sudeste ficaram para amanhã.

Antes das praias Mole e Joaquina passei pelo mirante de onde se pode ver o lago maior da Lagoa da Conceição; muito lindo.


Estava com fome e muita. Eram 14:20 h quando sentei à mesa. Queria camarões e aceitei a sugestão do garçom que esqueci o nome, mas é típico da região. Trata-se de um prato servido em três tempos:

O 1º - Camarões à milanesa com 01 bolinho de siri – Excelente;


O 2º - 01 porção de camarões ao alho e óleo e outra de camarões ao bafo – dos Deuses;


O 3º - 02 filés de dourado, arroz, batatas fritas e molho de camarões – O ponto fraco do trio, estava bom, mas os anteriores me deixaram na expectativa.


Acompanharam 02 originais geladíssimas.

Queria muito chegar ao hotel, tomar um banho e tirar um cochilo no ar condicionado. O sol havia aparecido e não estava fraco.

Mas antes passei pelo mirante do outro lado da ponte de onde se consegue ver os dois lagos que formam o conjunto Lagoa da Conceição. Maravilhoso.


Agora vou tirar um cochilo para ficar descansado e ver como se comporta a cidade em uma 3ª feira à noite.

Depois eu conto.

22 de out. de 2011

14º E 15 º DIAS – CAXIAS – PORTO ALEGRE – CAXIAS

Ainda estou por aqui e está sendo muito prazeroso permanecer em Caxias.
Não havia programado essa parada e muito menos tão longa, mas as circunstâncias me obrigaram.

Ainda estou hospedado na casa do casal da cidade e estou sendo muito bem tratado. Desisti de ir para o hotel por insistência deles.

Eles foram para Santa Cruz visitar o pai dele, me convidaram, mas assuntos pendentes não permitiram. Como vêem estou só apenas com seu casal de calopsitas.


A hospitalidade dos gaúchos é impressionante.

Apesar de vários contatos eu não estava sendo bem sucedido na resolução dos problemas da minha companheira de viagem; a falta de filtro de ar, de pastilhas de freio e agora da peça de fixação do espelho retrovisor.

O atendente da concessionária de Porto Alegre era gente boa, mas não resolvia. Havia prometido as peças até 5ª feira o que não aconteceu. Estava preocupado de não chegarem a tempo e ter de ficar até 3ª feira preso por causa disso.

18:00 h de 5ª feira e nada das peças. Informaram que havia mais um malote para chegar até às 18:30 h. Confirmaram várias vezes que retornariam independente da chegada ou não, mesmo sendo ligação para um celular de outra cidade.

Ligaram para vocês? Para mim, não!

Decidi desconsiderar Porto Alegre, na 2ª feira iria para Floripa e depois para Curitiba, onde tem outra concessionária e tentaria resolver tudo lá.

Como escrevi no post anterior, fui a um bar de blues e foi fantástico

Acordei meio que desnorteado pela noite e pelo problema. Não conseguia concatenar as coisas e a idéia de seguir viagem não me perecia correta.

Com a ajuda de meu anfitrião, Marcelo, resolvi ligar novamente para Porto Alegre.

“Senhor, suas peças não chegaram, mas pedi um aéreo e as pastilhas chegarão até meio dia. Não consegui o filtro de ar e o problema do espelho nós damos um jeito aqui. Pode chegar aqui às 12:00 h”

Eram 11:10 h

“Mauro, se chegar aí ao meio dia você estará no almoço. Vou chegar mais tarde.”

“Não, pode vir que vamos te atender.”

Desconfiado, troquei de roupa, o espelho, os documentos e chave da moto e parti para POA.

Foi tranqüilo, não havia muito trânsito e eu já tinha noção da estrada. O espelho fazia falta e os freios ainda eram economizados mas com menos parcimônia.

Cheguei às 12:23 h e como havia previsto a oficina estava fechada para o almoço. Só abriria às 14:00 h. Segurei a onda, me mantive o mais educado possível e fiquei conversando com alguns funcionários.

Consegui relaxar e às 13:30 h a moto entrava para os reparos.

Liguei para meu amigo do casal que havia ficado em POA para combinar um chope depois que saísse da concessionária.

“Eu vou até aí e batemos um papo.”

Ele já havia almoçado, mas me acompanhou até um restaurante que não servia mais almoço. Pedi uma torrada completa:

Pão quadrado – gigante, queijo, presunto, ovo frito, frango desfiado e tinha mais coisa, mas não lembro O que. Bebemos uma Polar (excelente cerveja gaucha) geladíssima.

O sanduba estava mágico e não sobrou migalha. Esqueci da foto.

O papo correu tranqüilo e divertido. Marcos é um grande cara.

Voltamos para a concessionária e logo depois chegou a moto.

Pastilhas novas, com o filtro velho e sem espelho.

“Senhor, não consegui resolver o espelho, a peça que quebrou não aceita solda e não temos outra.”

Foi aí que vi que o sistema é diferente do tradicional de outras motos. E a peça que pensava ter quebrado estava inteira e a que quebrou era outra que para meu alívio bem mais barata.

Lembrei que Marcelo (o anfitrião) havia falado de um “fazedor” de peças personalizadas para enfeitar motos, mas era em Caxias, precisava correr.

Me despedi de Marcos, pois não haveria chance de bebermos outra cerveja como previsto.

Quando estava saindo, Mauro (da concessionária) sugeriu ir a um torneiro mecânico para um conserto paliativo que permitisse chegar ao Rio. Era perto, três quarteirões de distância.

“Gostaria de fazer uma peça.”

“Senhor, estão todos fora. Faleceu o pai de um dos funcionários e eles estão todos no enterro.”

Que falta de sorte!. Perguntei se havia outro:

“Na esquina, senhor.”

Seu Giovanni é um italiano dos bons. Seus sessenta anos como torneiro mecânico foram decisivos na solução do problema. Em vez de fazer uma peça nova, desbastou a existente, fez rosca, colocou um pedaço de haste rosqueada que rosqueou na base do espelho. Ficou melhor do que o original, não será necessário substituir.

O serviço foi feito em meia hora de papo e custou 20 “reaus” ou 20 pilas como falam aqui.

Torneraria Di Blasi – Giovanni Di Blasi – Av. Ceará. 911 – São João Porto Alegre – 51-3337-36-89

Voltei para Caxias feliz pela solução dos problemas. Estava mais calmo, isso me fez relaxar e acabei errando o caminho (pela primeira vez nessa viagem e não estou utilizando o GPS). Estava na estrada que peguei para chegar em Caxias na primeira vez. Cheia de curvas, subidas, descidas, sol forte, vegetação densa, asfalto ótimo, ou seja, tudo que eu estava precisando naquela hora.

Havia passado dias me segurando por conta da falta dos freios, era hora de ir a forra, só restava largar a mão no acelerador, deitar nas curvas e curtir os momentos de êxtase.

Cheguei na casa de Marcelo cansado, mas bem feliz.

Um banho, roupas limpas e saí para beber uma cerveja gelada no bar onde assisti aos jogos do Mais Querido. Um lanche, papo tranqüilo com o dono do estabelecimento e duas cervejas geladas. Quando saí, resolvi ver se haveria nova banda no Mississipi, o bar de blues.

Ia rolar Pink Floyd e rolou.

A banda é ótima e as músicas tocadas não foram as batidas de sempre. Lógico que rolaram umas duas ou três batidas (Time, Wish You Were Here, não tocaram Another Brick in The Wall I), mas tocaram outras maravilhosas raramente ouvidas nesses shows de bandas “covers”.

Não preciso dizer que foi fantástico. Foram mais de duas horas de recordações antigas e recentes ainda mais quando tocaram “Us and Them”, "Pigs On The Wing", “Mother“ e “Confortably Numb”)

Até o próximo

21 de out. de 2011

10º, 11º, 12º E 13 º DIAS – CAXIAS – PORTO ALEGRE – CHUÍ – SÃO LOURENÇO – RS - CAXIAS



Tudo como nos outros dias, a única diferença foi a presença do sol desde cedo. Acordei antes do despertador, tomei café e montei o quebra cabeças o mais rápido que pude, pois tinha hora marcada em Porto Alegre.

Seriam apenas uns 150 quilômetros, nada demais, mas tinha agendado a revisão de minha companheira de viagem e precisava chegar cedo, se possível com a concessionária abrindo a fim de dar tempo de recebê-la de volta ainda no mesmo dia. Sem muito esforço e sem correr riscos, consegui chegar às 08:05 h. Teria chegado mais cedo se não fosse o trânsito absurdo quando entrei na cidade. Coisas de Brasil.

Fui muito bem atendido e apesar de ter esquecido de confirmar a data exata, havia “vaga”. Intercalamos os acertos e termos de serviços necessários, com papos sobre a viagem, incluindo informações de como seguir até o Chuí e conseguir um hotel. Feitas as ligações necessárias consegui um quarto bem localizado.

Com a ajuda do atendente consegui a “Carta Verde”. Nesse documento gastei apenas R$ 95,00 aproximadamente e apenas 30 minutos, ambos bem menos do que haviam previsto quando perguntei ainda no Rio.

Poucos sabem para que serve esse documento, eu não vou dizer agora, mas podem acreditar que é importante. Em breve vocês saberão.

Recebi o “vaucher“ como previsto e fui de taxi gratiz para o hotel.

Ar condicionado funcionando, após um excelente banho fui almoçar.

Mas antes resolvi tentar o caixa eletrônico. Havia chegado em POA (Porto Alegre) com aproximadamente R$ 150,00, com o paguamento da Carta Verde mais o taxi de volta à concessionária, teria de pedir esmola na praça a fim de pagar ao menos os pedágios.

Eram 11:30 h quando cheguei ao caixa eletrônico

“SENHA BLOQUEADA ! “

Confesso que, devido a possibilidade de ficar sem grana, já cheguei de mau humor.

Eu sabia que esse bloqueio era armação do Banco, pois eu não podia ter errado três vezes seguidas a senha que utilizo pelo menos uma vez por semana.

Sei que as pessoas tem o direito e dever de correr atras de seus direitos e/ou melhorias quaisquer que sejam, mas desde que não prejudiquem quem não tem nada a ver com o problema. Em uma visão simplificada, no caso dessa greve, os bancos ficam com o dinhero em seus cofres que é aplicado como de praxe, os clientes poderosos têm suas aplicações feitas devido as trocas de favores entre seus pares e os não poderosos, que somos nós, ficamos com os problemas.

E eu tinha os meus e não eram poucos.


Ao sair, vi que havia uns grevistas na porta. Perguntei se a greve havia acabado.

“Ao meio dia tiraremos as faixas e a agência vai abrir.“

Aguardei até a agência abrir às 12:10 h.

Fui ao caixa e após as providências necessárias :

“Senhor, não consigo resolver seu problema aqui, o senhor vai ter de ir a uma agência Personalité.“

Havia uma logo ao lado, menos mal.

Após mais uma discussão resolvi o problema e saquei uma grana. Não foi simples assim, podem ter certeza, mas não vou entrar em detalhes.

Não estava a fim de procurar muito, fui direto para a praça de alimentação de um shopping próximo. Dentre muitos escolhi um italiano. Nos moldes do Mamma Gema de Bento Gonçalves inclusive com alguns pratos similares.

"Mass bah! Acho que é moda aqui no Rio Grande! Tchê!"

Saladinha, franguinho e quatro tipos de massa. Comida honesta, ambiente agradável, funcionários educados a um bom preço.

Dessa vez foram as duas taças de Malbec chileno que ajudaram a apreciar as simples mas saborosas iguarias.

Uma volta na cidade para depois retornar ao hotel e descansar enquanto aguardava a moto ficar pronta.

03:00 h o atendente liga informando que não havia filtro de ar nem pastilhas de freios e que só iria receber essas peças em três dias. Eu não podia esperar, tinha hotéis e objetivos com datas comprometidas.

Eles tinham algumas motos iguais a minha na loja, então perguntei se não poderiam tirar as peças de uma dessas motos substituindo-as pelas que chegassem, afinal seriam dois dias e com certeza não iriam vender todas as motos nesse tempo.

“Não é procedimento da empresa.”

“Meu amigo, quando comprei a moto me informaram que por ser muito utilizada em viagens as concessionárias “dão” prioridade de atendimento aos viajantes para que estes não percam tempo e/ou compromissos assumidos. Vocês não têm as peças em estoque e têm que atender a essa premissa, só vejo esta solução. Vocês acham que não devem fazer isso, mas estão me pedindo para abrir mão de meus compromissos. Acho que está havendo uma inversão de valores.”

Diante da persistência do atendente:

“Ok, eu não posso parar, você mande montar a moto que eu vou seguir viagem. Na volta, que será em quatro ou cinco dias eu passo por aqui e complementamos o serviço. Se acontecer algo em decorrência dessas peças a responsabilidade será da BMW. Vou ligar para meu advogado e ele tomará as providências necessárias. A que horas pego a moto?”

“As 15:30 h.”

“Obrigado.”

Liguei para a BMW, que ficou de ligar para a concessionária e retornar. Não resolveu. Repeti a história do advogado e encerramos o assunto. Desci peguei um taxi para pegar a moto.

Mauro estava diferente. Não era mais o cara simpático e atencioso da manhã.

“Mauro, não é pessoal, é uma questão de prioridades. Não estou pedindo para consertar um motor quebrado ou problemas conseqüentes de uma queda e sim substituir peças de fácil reposição. Posso estar enganado, mas a pastilha de freio não deve ser desenho exclusivo para a minha moto. Outras motos devem utilizar o mesmo produto se assim for, o mercado deve vender essas pastilhas. Quanto ao filtro de ar, mais uns 1000 rodando com ele assim não deve ser problema grave vai aumentar um pouco o consumo, paciência. Mas você pode tirar de outra moto. Resumindo, vocês não estão fazendo nenhum esforço para solucionar o problema de um cliente da BMW. Estão preferindo correr o risco de ligar o nome da empresa a um possível acidente do que fazer uma simples troca que não vai prejudicar ninguém. Espero que não aconteça e vou fazer a minha parte para que não aconteça, mas a possibilidade existe e se acontecer, a BMW pode até vencer no final, mas os alemães não vão querer estar envolvidos nessa coisa toda.”

Resumo, não adiantou nada. Peguei a moto e fui dar uma volta na cidade. O fiz evitando utilizar o freio traseiro. Não foi difícil.

O resto do dia e noite fiz o que estava programado. Foi ótimo.

Acordei cedo como sempre. As tarefas de início de viagem concluídas e parti com destino ao Chuí pensando em não parar para pernoite em Pelotas como havia programado.

Foi a parte mais chata da viagem. Uma reta com mais de 500 quilômetros. A paisagem é bonita, mas por não ter montanhas ou vegetação densa, cansa. Eu estava no famoso Pampa Gaúcho. Ao contrário do esperado não havia muitos bois e/ou vacas; havia alguns carneiros e ovelhas. O sol a pino era a única diferença dos dias anteriores e mesmo não tendo sombras a temperatura era agradável. O computador da moto mostrava 20graus.


Estava dando sono. A boa notícia é que por não ter curvas as ultrapassagens eram feitas com mais facilidade e quase não precisava usar os freios.

“Só resta testar limites para evitar o sono e o único a testar em uma reta é velocidade.”

Mentalizei para que minha companheira ouvisse e ela respondeu aceitando sem reclamar os meus comandos.

Estava em sexta marcha e queria resposta rápida, fechando duas vezes o alicate da esquerda lá se foram duas marchas para baixo. Mão firme rosqueei o acelerador e a frente levantou uns centímetros do asfalto:

110, 120, 130; 5ª marcha.

A velocidade ia subindo muito rápido enquanto o vento batia em meu peito com força.

140, 160; 6ª e última marcha.

Mantive em 160 a fim de me acostumar. Não havia curvas, então para que pressa?

Iniciei um Gerenciamento de Riscos.

Os caminhões na pista contrária deslocavam a massa de ar de tal forma que sacudíamos lateralmente. O primeiro foi um susto.

“Tenho de resolver isso.”

Tentei traçar uma leve diagonal na direção do caminhão enquanto a distância entre nós e ele diminuía. Deu certo, nenhum abalo em nosso equilíbrio. Risco mitigado.

Havia o vento lateral que ora vinha de um lado ora do outro e exatamente por causa disso, não havia o que fazer. Risco absorvido.

Os demais faziam parte do pacote sendo assim, nada mais havia a fazer com relação a esse gerenciamento.

Após esta breve análise já havia me acostumado aos 160.

Aguardei a pista limpa e:

180 e 190. Mantive. O vento frontal era muito forte, abaixei o tronco e contei até 20 para reiniciar.

Cheguei aos 200 e havia mais acelerador para rosquear. Não sabia quanto.

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10.

Desrosqueei o acelerador devagar. A velocidade foi caindo até os confortáveis 140.

Mais alguns minutos de reanálise e após a pista estar limpa, nova investida.

Chegamos aos 200. E havia mais acelerador para rosquear. Não sabia quanto.

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10.

Desrosqueei o acelerador devagar. A velocidade foi caindo até os confortáveis 140 novamente.

Mais alguns minutos a terceira investida.

200. E havia mais acelerador para rosquear. Não sabia quanto.

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10.

Na quarta investida rosqueei o acelerador até o final, mas minha companheira não passou dos 200 mostrando que esse era o seu limite. Não era o meu.

Seguimos nessas investidas por um bom tempo. Estava tranqüilo e senhor da situação. Pelo menos me sentia assim.

Mas a responsabilidade falou mais alto e resolvi diminuir o pico de 200 para 180 e aumentar os intervalos entre as investidas

Me diverti.

Isso tudo aconteceu no meio da Reserva de Taim. A única coisa ruim era o cheiro de carniça que estava no ar durante quase todo o trajeto. Vinha de animais atropelados que conseguiam passar pela grade de proteção para atravessar a estrada. Não eram poucos. Uma pena.

Com isso consegui economizar uma pernoite em Pelotas e às 12:10 h estava na aduana brasileira da cidade de Chuí.

Me informei como chegar ao Arroio Chuí, nosso ponto mais ao sul, e como entrar no Uruguai. Só a carteira de identidade ou passaporte bastam. Estava com a de motorista (identidade no Brasil) e o passaporte (estava vencido, mas trouxe por desencargo de consciência).

A cidade está mal tratada assim como nosso ponto extremo.

Não entendo o motivo desse desleixo. São pontos estratégicos e históricos que deveriam ser tratados com mais respeito. Deveriam ter elementos específicos e não apenas uma placa de ferro que vai se deteriorar com o tempo. Um absurdo.

No Arroio parei um casal de uruguaios em sua sccoter e tirei essa bela foto.


Mais um objetivo cumprido.

Segui em frente atravessando a ponte sobre o rio limítrofe entre o Brasil e o Uruguai. Em seguida uma casinhola (devia ter tirado uma foto) aos pedaços com uma placa de “PARE”. Foi o que fiz e de dentro do casebre saiu um senhor educado que perguntou em espanhol:

“Boa tarde! O Senhor já solicitou autorização de acesso?”

“Sim, já tenho a Carta Verde e estou indo para Punta (Dell Este)”

Essa era a surpresa. Havia decidido que se chegasse bem e descansado no Chuí iria dar uma esticada até Punta e ficar duas noites por lá. Seriam apenas mais uns 200 quilômetros até lá.

“Pode passar.”

“Gracias.”

Andei uns dez metros e resolvi voltar para me informar de direção e caminho a tomar.

“O Senhor tem certeza que já solicitou autorização de acesso lá na aduana?”

“Não sabia que precisava achei que precisaria apenas da Carta Verde”

Carta Verde é obrigatória para quem vai “entrar” de carro ou moto. O nosso seguro só cobre acidentes em nosso território e esse documento é o seguro para os demais países da América do Sul.

Voltei a Aduana uruguaia para solicitar a autorização.

“Senhor, onde posso parar a moto?”

“Alí!” Em espanhol e apontando um espaço.

“Senhor, o que faço agora?”

“Depende, o que deseja”

“Comprar pão” Pensei com meus botões e respondi:

“Entrar em seu país.”

“Ah! Então tens de entrar naquela porta.”

“Gracias.”

“Bom dia!”

Ela era bonita, nem tirou os olhos do computador e com grosseria pediu:

“Identidade ou passaporte.”

Mostrei a Carteira de Habilitação.

“Isso aqui não serve.”

Entreguei o passaporte, vencido.

“Está vencido.”

Antes de sair, em um dos últimos dias de trabalho, um colega que mora no Paraná e faz essas viagens constantemente havia me incentivado a ir até Punta e Montevidéu e diante da minha dúvida em função de ainda não ter a Carta Verde ele disse:

“Ora, lá não é diferente, qualquer “vintão” resolve o problema. Já fiz isso várias vezes.”


Respondendo para a Uruguaia:

“Eu sei, mas trouxe mesmo assim. Eu não tenho mais documentos. Como podemos resolver? Vou apenas passar duas noites em Punta.”

“Não posso fazer nada.”

Ela estava com a razão, mas poderia ter sido mais simpática ou ao menos educada. Isso me irritou.

Desisti. Peguei a moto e comecei a replanejar a volta. Mas aquilo estava me incomodando.

“Como ando quase 3000 quilômetros e desisto logo na primeira dificuldade?”

Voltei a Aduana brasileira onde foram solícitos, mas não poderiam fazer nada. Sugeriram o Consulado brasileiro.

Cheguei e também fui muito bem atendido e em duas horas estaria com o passaporte novo com validade para 05 anos como todo mundo. O fato de estar com o vencido ajudou bastante. Seria mais rápido, mas o responsável ia almoçar. Enquanto isso, fui fazer o câmbio, precisava de 1900 pesos

Não entendi porque o Consulado brasileiro não aceita Reais, não quis arrumar mais um problema, fiquei calado, mas mais puto.

Estava cansado e bobeei ao estacionar a moto, ela tombou para o lado direito quebrando o espelho direito.

“PORRA!! COMO VOU ENTRAR AGORA SE ESSES CARAS SÃO TÃO RÍGIDOS NÃO VOU PODER TRAFEGAR SEM ESPELHO POR LÁ.!

Pensei comigo mesmo. Claro que não ia dar esse show em território uruguaio, mas estava queimando por dentro.

Resignado, porém muito puto, voltei ao Consulado e em minutos estava assinando o passaporte novo e o recibo de recebimento do mesmo.

Subi na moto iniciei a volta. Seriam quase 300 quilômetros até Pelotas e eu não estava nada paciente. Imaginava como seria pegar aquela reta toda, mal humorado, ia dar merda. Precisava me acalmar, mas não poda parar para fazê-lo, ia perder tempo e assim chegar de noite.

Fui abastecer.

“Estamos sem gasolina, Senhor.”

“PUTA QUE PARIU!”

Abasteci no seguinte e reiniciei a volta. Estava tenso.

Não rodei mais do que 10 quilômetros, estava conseguindo controlar a velocidade, e ao passar por um posto à minha esquerda vi um grupo de motociclistas.

Não sei explicar o motivo, mas resolvi parar e bater um papo, sei lá!

O papo rolou numa boa. Eram três simpáticos casais que voltavam de uma viagem em torno do Uruguai. Foram uns 10 dias e falaram maravilhas de Punta.

Enquanto almoçava a minha barra de cereais, relatei por alto o ocorrido. Eles disseram que lá, como aqui, ninguém iria reparar a ausência do espelho e que quase ninguém usa capacete entre outras coisas.

Não quis voltar. Até poderia, a distância seria menor, mas estava muito chateado. Não era para ser.

“Posso ir com vocês?”

“Mas claro tchê! Vamos juntos.”

“Valeu”

Em minutos estávamos na estrada.

O ritmo deles é bem diferente do meu. Eles rodam a 90, 100 com picos de 120 quilômetros por hora, mas estava sendo bom, para mim. Eu conseguia ver com mais detalhes a fauna e flora da região. Pássaros diversos, jacarés (eu não vi, eles viram), capivaras, etc. Muito bonito. Isso me acalmava.

Estávamos novamente na Reserva do Taim e eu estava vendo outro risco que não considerei na análise feita na ida. Poderia ter atropelado uma Capivara e com certeza não estaria aqui escrevendo esse longo texto.

A viagem transcorreu tranqüila e nas paradas fomos nos conhecendo. Chegamos em Pelotas. Feitas algumas ligações verificou-se não haver vaga nos hotéis. Após algumas considerações resolveram seguir até São Lourenço do Sul, mais uns 50 quilômetros.

“Você vem conosco?”

“Se não houver problema sim, vamos nessa.”

Totalizando mais de 850 quilômetros (para mim), chegamos a cidade.

Já havia escurecido e o frio dava o ar de sua graça, mas conseguia ver como era simpática. Casas de fachadas e volumes interessantes, ruas largas, sem prédios e boa infraestrutura.


São Lourenço fica a margem da Lagoa dos Patos e é bastante freqüentada no verão. As margens formam praias que ficam repletas de veranistas. Fiquei com vontade de voltar em um verão desses.


A pousada é simples, mas muito agradável. Poucos amplos e agradáveis quartos com banheiro. O casal proprietário muito atencioso e simpático. Já se conheciam.

Reparei certa deferência para comigo, considerei hospitalidade.

Um maravilhoso banho quente até que acabou a luz. Estava no fim e consegui tirar o resto de espuma sem sofrer muito. Pensei:

“O disjuntor não agüentou os quatro chuveiros “trabalhando” juntos.”

Aproveitei os momentos que tinha e mandei a seguinte mensagem ao hotel de Punta onde havia solicitado reserva:

“Senhores,

Lembro que uns trinta dias antes de sair do Rio de Janeiro mandei uma mensagem para seu Consulado para saber o que seria necessário para ingressar em seu país.

Estou aguardando a resposta até agora.

Ontem, fui muito mal tratado pelo pessoal de sua Aduana e não pude ingressar porque não estava com minha carteira de identidade ou passaporte. Pensava que a de motorista e a Carta Vede seriam suficientes.

Poderia ter ido ao nosso Consulado tentar resolver, mas devido ao péssimo tratamento a que fui submetido, desisti. Não estou acostumado a esse tipo de coisa. Ainda mais com turistas dispostos a gastar dinheiro em outro país.

Espero sinceramente que esse tratamento não seja uma regra, pois pretendo voltar. Mas não será uma prioridade.

Soube depois que, como o meu país, o Uruguai permite ingresso de pessoas sem os documentos necessários, é tudo uma questão de "jeitinho". Eu fui tentar fazer da forma correta, não consegui.

Sendo assim, infelizmente não vai ser possível eu gastar meu dinheiro em seu país.

Saudações”

Roupa nova e limpa, saímos para jantar. Rodamos pela cidade até a orla onde estava o restaurante.

O papo seguia agradável com algumas piadas de praxe, pedimos as cervejas geladíssimas e a comida. A maioria Peixe a Parmegiana. Nunca havia ouvido falar que se comia peixe, porco (presunto) e vaca (queijo) juntos.


A aparência estava ótima e o gosto, MARAVILHOSO!

A turma é excelente e trocamos histórias interessantes. Muito bom conhecê-los.

Voltamos para a pousada mortos (eu pelo menos) e combinamos o café para às 08:00 h.

Acordei às 06:00 h, um banho, quebra cabeças semi montado, uma olhada rápida nos e-mails e já vestido com parte da roupa de estrada desci com a mala de tanque e alguns equipamentos deixando apenas a mala maior onde guardaria a escova de dentes que usaria após o café.

Resolvi dar uma olhada nos e-mails e vi que havia recebido o retorno do hotel de Punta;


“Estimado Sr. Sperandio

Lamentamos lo que le ha sucedido y es injusto que por culpa de una persona quede mal nuestro pais, no es la idiosincracia de nuestro pueblo y eso lo avala los comentarios de sus compatriotas y también el publico de otros países que destacan la atención de la gente de Uruguay, es una verdadera lástima que se de una mala imagen y justo cuando usted esta por ingresar al país que es cuando se lleva la primera impresión.
En lo que respecta a nosotros sepa que sera siempre bienvenido a nuestro hotel y trataremos de que tanto usted como sus acompañantes pasen una muy agradable estadía en Punta del este.

Quedamos a las órdenes y entendemos perfectamente su enojo.

Saludos cordiales

Orlando”

Respondi:

“Gracias.”

Os demais foram chegando, eram mesas para quatro e nos espalhamos.

As opções eram muitas, pães (entre eles o cacetinho, como chamam nosso pão de sal), frutas, suco de laranja, água, leite, geléia, manteiga e muita conversa.

Na hora de pagar, o dono mostrou uma foto da cidade tirada em março desse ano. Foi a época das grandes chuvas e enchentes na região. A água subiu muito deixando de fora apenas o letreiro e o segundo andar da casa. Isso me deixou mais admirado com o estado e limpeza da cidade. As casas todas pintadas, os jardins todos bem cuidados e as ruas limpas. Bem diferente dos morros e estradas do Rio de Janeiro que também sofreram com as chuvas da época.

Despedimo-nos e partimos.

Almoçamos em um restaurante de beira de estrada e chegamos às portas de Porto Alegre onde ficou o primeiro casal. Vou encontrá-los amanhã quando voltar a concessionária com a moto.

Às portas de Bento Gonçalves ficou outro casal. Devo encontrá-los no fim de semana caso permaneça na região.

Eu e o último casal seguimos para Caxias. Na cidade o maior evento da região, a MERCOPAR deixava os hotéis e motéis da cidade e redondezas entupidos.

Aceitei o convite de ficar em sua casa, mas com a promessa de caso forem ao Rio ficarão na minha. Estou sendo muito bem tratado. Mas sexta feira estarei no hotel.

São exatamente 02:12 h estou de volta após estar em um bar onde só rola blues. E rolou uma banda muito boa. O interessante é que no meio do show eles começaram a chamar outros músicos que estavam no bar, provavelmente conhecidos. Me impressionou uma mulher com seus no máximo 30 anos tocando gaita. Depois fui saber que fazia parte de outra banda, mas ela tocava muito bem. Foram vários, todos bons, até que entrou um guitarrista muito excelente. Vi que não era brasileiro e após me informar soube que era um tal de Guy King que veio à Caxias para um show e resolveu dar uma canja no bar.

Eu gosto muito de rock e blues e estar presente nessa noite foi indescritível. O bar estava cheio, as pessoas interessantes e ainda rolou uma carona com umas arquitetas até a casa onde estou hospedado.

Não podia encerrar melhor.
Até o próximo.

16 de out. de 2011

9º DIA – CAXIAS - BENTO GONÇALVES – RS - CAXIAS


Confuso devido ao horário de verão, não sabia se meu novo projeto de celular estava configurado para trocar a hora automaticamente ou não. Estava, mas não trocou, com isso vemos a qualidade do aparelho. Não vou dizer que é um Nokia, que não trava teclado, não tem tecla de atalho para colocar no vibracall, etc. porque não quero arrumar confusão. Mas tem uma coisa que muitos não tem e é imprescindível!. Nem os mais modernos smartphones têm. Lanterna.

“Também, por R$ 79,00 reaus tu vai querê o quê?”

Em minutos recebi o SMS do cara com quem iria ao almoço italiano.

“Bom dia, sairemos às 08:00 h de Vacaria. Passaremos em Caxias pelas 09:20 h sentido Farropilha.”

Respondi:

“OK. Onde será o ponto de encontro?”

Não recebi retorno, provavelmente já estava na estrada.

Para mim, era difícil saber o local exato. Tinha acabado de tomar café da manhã. Chamei a recepcionista, contei a história e mostrei a mensagem. Talvez por conhecer o dialeto e costumes da região poderia encontrar naquele texto o local do encontro do pessoal.

“Eles vão passar nessa estrada aqui em frente.”

Subi, vesti a roupa de estrada, verifiquei que as roupas que estavam no fundo da mala estavam úmidas há dois dias, algumas manchadas. Pendurei todas elas pelo quarto e desci para aguardar a passagem da galera.

Aguardei quase uma hora, a névoa estava baixa e forte poderia atrasar sua chegada, mas nada.

Desisti de esperar mais. Subi na moto e fui estrada adiante sem destino. Cheguei em Bento Gonçalves, cidade das vinícolas. Havia esquecido que visitá-las era um objetivo.

Entrei na cidade, nenhuma sinalização, fui perguntando até chegar na Barrica de Concreto. Ao lado uma construção específica para informações. Recebi as indicações e mapas necessários e parti.


O sol já havia dado as caras e estava poderoso.

Não havia tempo para ver tudo, são mais de vinte quilômetros em um circuito com diversas vinícolas artesanais e duas industriais, Miolo e Casa Valduga (não sei se se escreve assim).

Há também uma casa de queijos. Foi a primeira parada. Os queijos ótimos e variados caíram como luva. Eu estava com fome.

A dona, muito simpática respondia a minhas perguntas sem rodeios e sem negar informações. Pais italianos queijeiros desde quando moravam na Itália só que apenas para o consumo próprio. Vieram para o Brasil e resolveram viver disso. E conseguiram. Não sou um conhecedor da matéria, mas me pareceram de excelente qualidade.


Após o excelente bate papo saí em direção a Vinícola Miolo. Uma grande área com vários prédios e armazéns para estocagem dos produtos. A visitação custou R$ 10,00 que seriam revertidos em desconto no caso de compra de algum produto; como não comprei nada, dancei (não tenho onde levar).


Devido a dificuldade na limpeza dos tonéis de madeira a fermentação dos vinhos é feita em tonéis de aço inox refrigerados. Não vou contar detalhes, pois é muita coisa, mas vale uma visita e não pode ser de apenas um dia. Existem hotéis excelentes e lugares a serem visitados romanticamente que não fica atrás de muitos pelo mundo. Vejam as fotos.


O que vale dizer é que, segundo o enólogo que nos acompanhou, alguns produtos receberam medalhas de ouro em alguns “concursos” em vários lugares do mundo. Eles produzem um espumante Millésime que com apenas seis anos sendo produzido já desbancou um dos melhores franceses. Ele disse o nome, mas esqueci. É muita informação.


Dos mais de 100 produtos fomos convidados a degustar 01 vinho branco, dois tintos e um espumante. Bons vinhos.

Saí em direção ao Mamma Gema. Indicado pela dona da queijaria para o almoço. Uma ampla e iluminada casa que serve almoço em forma de rodízio de comida italiana.

Dispa-se do preconceito de rodízio porquê nesse caso não há nenhum clima de carregação, ao contrário, é um ambiente tranqüilo onde as mesas são confortáveis e o espaço entre elas é generoso. Os diversos funcionários são educados, simpáticos e atenciosos.

Serviram uma espécie de couvert com rodelas de salame e cubos de queijo da região, pasta de ervas e berinjela em pequenos pedaços. Acompanha pão também da região. Simples, mas de boa qualidade.

Depois uma salada composta de:

- Alface;
- rúcula;
- Pedaços pequenos de nozes;
- Queijo Gorgonzola ralado;
- cubos de manga;
- Azeite.


Me surpreendeu.

Após seu consumo iniciou-se o meu rodízio:

- Frango com ervas – Tenro e muito bem temperado, Muito bom;
- Risoto de tomates secos com castanhas de cajú – Uma combinação muito bem feita;
- Ravioles de gorgonzola, nozes e molho branco – Macios com um gosto bastante agradável;
- Tortei de abóbora à bolognesa – Excelente;
- Costela suína com mel e um segredo da casa – Dos deuses;
- Talharim com alcachofras – Sem comentários.


Havia mais uns três pratos, mas não consegui prová-los, olha que pedi pouco dos que provei.

Após o almoço tentei fazer uma visitação em uma vinícola artesanal, para comparar os procedimentos com a industrial, mas não havia nenhuma aberta para isso, havia degustação, mas como estava de moto...

Resumindo, vale ir à Bento Gonçalves, passar uns dias, fazer o circuito todo e almoçar nem que apenas uma vez no Mamma Gema. À noite é frio, não vá só.

Amanhã, Porto Alegre, minha companheira vai para a revisão, espero que eles paguem o taxi para o hotel. Aí no Rio pagam.

Se desejarem mais informações ou fazer encomendas acessem:

WWW.queijariavalbrenta.com.br

WWW.miolo.com.br

WWW.michelecarraro.com.br

mammagema@gmail.com

Até.

15 de out. de 2011

8º DIA - LAGES – SC – CAXIAS DO SUL – RS - GRAMADO – RS


Tarefas que antecedem a partida cumpridas, café da manhã, lubrificação da corrente, montagem do quebra cabeças e conta paga. Tudo certo, tudo ótimo a não ser pelo céu nublado.

Sobre a roupa de estrada a roupa contra chuva, com direito a polainas.

Parece sacanagem!

Meia hora de estrada uma parada para retirar a roupa de chuva. O céu estava ficando azul. O mais azul desde que comecei a viagem. O calor aumentava devido ao brilho e poder do sol. Há tempos não via e sentia isso.

Um café e um papo rápido com um motociclista de Vacaria, RS. Convidou-me para um almoço italiano que vai rolar em Novo Hamburgo, não tenho certeza, acho que esqueci. Ficamos de nos falar amanhã antes de sairmos.

A estrada se mostrava normal, a BR 116 nunca me disse nada de significante em termos de emoção ou parazer ao dirigir.

Seriam apenas 220 quilômetros. Resolvi seguir em baixa velocidade a fim de aproveitar a paisagem. Conforme ia me aproximando do destino a estrada revelava seus segredos, estava nas serras gaúchas.

O asfalto limpo e de boa qualidade disposto de forma sinuosa e em aclive fizeram com que meus instintos despertassem.

A velocidade aumentava em progressão geométrica assim como a agressividade com que eu e minha moto degustávamos cada curva.

A mata serrada desenhava sombras de formas diversas. Formas que protegiam do sol e calor, ele estava lá, sobre a mata, mas apenas acompanhando nossa trajetória.

Com as sombras a temperatura se tornava cada vez mais agradável a cada metro “escalado”.

Tivemos mais uma manhã de prazeres indescritíveis até chegarmos saciados, pelo menos até aquele momento, no hotel em Caxias do Sul.

“Check in” feito, malas no quarto, desci o mais rápido que pude para seguir até Gramado.



Mais serra, mais curvas, mais prazeres, muitos prazeres. Indescritível.

Sem desmerecer os dias passados em São Paulo e Paraná, desde Santa Catarina que a viagem tem sido outra.

Sem chuva, nenhum stress e muito prazer. OBRIGADO!

Um passeio pela cidade que continua linda como na última vez. Almoço em um restaurante típico acompanhado de uma cerveja super gelada.

Troca de informações com alguns clientes em mesas perto, um café dos deuses e mais outra volta na cidade.

Mais uma hora descendo a serra até um bar específico onde se reúne os Flamengos da cidade para assistir as exibições do Mais Querido.

Vitória magra (1 x 0) consumada volto ao hotel para o mais que merecido banho, uma soneca e jantar.

Boa noite.

14 de out. de 2011

6º e 7º DIAS – FOZ DO IGUAÇÚ – PR – CAÇADOR - SC - LAGES - SC


Café da manhã tomado, uma hora para montar o quebra cabeças, corrente lubrificada, já vestido com a calça contra chuva, as polainas e o céu mais que cinza prevendo a chuva. Pista úmida e movimento razoável. Já estou acostumado.

Em menos de meia hora tive que parar. A chuva engrossou, o céu escureceu mais me obrigando a vestir o casaco contra a chuva.

Tudo pronto, um papo interessante com o modesto e simpático frentista do posto, as fotos e mão na estrada.

Chovia como nunca nessa viagem e o pior, logo no início. Todos dizendo que seria o dia todo e o pior, no dia seguinte também.

Se não tem remédio remediado está.

“Pau na máquina!”

Como diria meu amigo e companheiro de trilhas Reinaldo. E foi isso que fiz, mas em baixa velocidade. Não tinha como ser diferente.

Estava na PR 277 (para Curitiba) e entrei à direita em Santa Teresa e peguei uma estrada secundária em direção a Lages passando por Realeza, José Beltrão, Pato Branco, Palmas, Caçador e Lebon Regis. Não tem nada a ver com o que havia planejado. Nas diversas consultas feitas obtive trajetos distintos e este me pareceu mais simples e rápido. Só posso dizer que foi sinistro!

Até Pato Branco a estrada era totalmente esburacada daquela que os caminhões desviam invadindo a pista contrária. Soma-se a isto a chuva forte, que fazia os buracos se esconderem sob a água e a falta de sinalização.

Foram umas 04 horas só nessa brincadeira. 04 horas para percorrer apenas 225 km. Foi nesse trajeto que eu fiz a confirmação de um celebre ditado:

“O pior dia pilotando moto é bem melhor que o melhor dia trabalhando.”

Aquela situação não era tão ruim assim. Eu estava aprendendo muito e tendo a oportunidade de conhecer melhor a minha companheira de viagem. Sem prestar atenção na situação crítica comecei a reparar em como a minha moto estava se comportando. Ela estava trafegando de forma limpa, sem sustos. Ela transmitia uma segurança incrível e respondia sem pestanejar a todas as minhas solicitações. Em nenhum momento desse dia ou dos anteriores, que também não foram fáceis, ela me colocou em risco. Pista úmida, molhada ou esburacada ela se mantinha firme na trajetória imposta por meus comandos; mesmo quando esses eram arriscados. Ela estava em minhas mãos e estávamos felizes.

Parei para almoçar em Pato Branco. Agradeci a Deus pelos bons momentos em segurança e por breves segundos a admirei agradecendo sua fidelidade.

Falta-lhe um nome. Nada vem a cabeça. Sugestões?

Novamente fugi a regra e comi um feijão com arroz, aipim cozido e frango. Estava ótimo. Abasteci e segui em frente.

A estrada melhorou sensivelmente e a chuva diminuiu, mas não nos abandonou. Pude aumentar a velocidade média e conseguimos percorrer os demais 330 quilômetros com tranqüilidade e certa rapidez recuperando minutos preciosos. Chegamos a Caçador. Era planejado ir mais longe, mas não ia arriscar mais, além disso, a cidade se mostrava simpática.



Moto abastecida, já no hotel semi novo, um banho quente de uma ducha forte. Ar condicionado funcionando assim como o aquecedor. Malas escancaradas a fim de o ar refrigerado retirar a umidade. Aqui outro ditado foi comprovado:

“Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.”

Em se tratando de equipamento para motos ou motociclistas não acredite quando disserem que é impermeável.

Uma cerveja geladíssima com um pouco de amendoim do saquinho que estava sobre a bancada.

“DELÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍCIA!!!”

Não tinha o plug adaptador da tomada então, fui dormir prevendo acordar às 21 h para jantar.

A pizzaria era o único funcionando. Casa meio cheia, show de um sertanejo nascido na cidade, Galeto, boa voz, bom violão, só os dois. Aturei até onde deu e foi pouco. Voltei ao hotel, pois o dia seguinte prometia não ser diferente.

Acordado pelo despertador? As coisas começaram a mudar. O céu ainda estava nublado, mas o sol aparecia timidamente. O quebra cabeças tinha mais peças, pois havia tirado quase tudo das malas para secar



Tudo pronto, café da manhã de qualidade, água e gelo no reservatório, conta paga, itinerário mudado, mais uma vez e confirmado e hotel de Lages reservado.

Parti atrasado em função das mudanças de itinerário e a montagem do quebra cabeças.

Conforme os quilômetros iam sendo conquistados e eu ia me afastando do Paraná os ares iam mudando, mudando para melhor. Nada contra o Paraná, mas que lá foi brabo foi!

O sol ia se mostrando aos poucos o azul do céu se tornando maioria. As estradas mais sinuosas que antes aumentavam o prazer da “tocada”.

Em Lages uma parada para informação e abastecimento. Um grande grupo de motociclistas partia restando 05 de outro grupo.



Vinham do sul voltando para casa. Perguntas diversas sobre o mesmo tema. Seguimos nossos caminhos.

Estava em busca de um ponto específico. Passar pela Serra do Rio do Rastro constava do roteiro da viagem que faríamos inicialmente até Bariloche.

Permaneceu no desta viagem e estávamos perto. Vislumbrava o prazer que teria ao trafegar por aquelas curvas de sinuosidade impar. Curvas com ângulos próximos dos 180º.

Mas o prazer já se fazia presente e com muita intensidade. As curvas da estrada que antecede a serra são maravilhosas.



A ligação que estamos conquistando nesses dias de convívio quase que íntimo, superando situações diversas, adversas ou tirando prazer de outras fazem dessa relação quase que uma simbiose.

A segurança que sinto ao ousar na inclinação e velocidade no início, meio e fim de uma curva fazem dessa relação algo incomum.

A cada comando docilmente obedecido por ela me dá a segurança necessária para testar limites.

O medo que tinha de percorrer curvas está se dissipando em doses latentes.

A aproximação de uma curva já não é mais motivo de preocupação e sim deleite.

Ao final de cada reta, o fechar dos alicates em intensidades e tempos distintos. O da direita, por alguns segundos, para reduzir com a pressão de uma freada a velocidade. O da esquerda, em seqüentes micro segundos, para baixar e depois subir marchas. Esse conjunto de comandos permite que a entrada, meio e fim de uma curva sejam sentidos como um arrepio.

E estávamos apenas nas preliminares. Eu gosto das preliminares e nesse caso estavam sendo perfeitas.



Ao chegarmos à serra todo o prazer se multiplicou. A distância reduzida entre as curvas fez aumentar a quantidade dos movimentos de vai e vem na troca das marchas. Para cima acelerando e para baixo reduzindo. A inclinação cada vez maior (ou seria menor?) permitia o prazer de raspar dos bicos das botas na estrada como se fazendo-lhe carinho, em uma traição concebida. Éramos três em um “menage“ sem precedentes. Eram múltiplos cada curva um.

Chegamos ao fim exaustos. Um descanso breve e a volta mais íntima. Por estarmos subindo, a gravidade se transformou no quarto elemento dessa prazerosa tarde inesquecível. Com ela as conseqüências de um improvável acidente se reduziam a quase zero ampliando os limitas.

Se a descida nos fez conhecidos com certeza a subida nos fez amantes.



Fica a saudade e a sensação de quero mais. A distância dificulta o reencontro, mas ele acontecerá, eu não tenho dúvidas.

Estou em Lages no Hotel

Até o próximo.