Mostrando postagens com marcador LIVRO 2. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador LIVRO 2. Mostrar todas as postagens

2 de jan. de 2013

5º CAPÍTULO - OLHOS NEGROS



Duas meias-luas, uma de mamão outra de melão, dois ovos mexidos com bacon, um suco de goiaba, três torradas de pão integral passadas em geleia de damasco.

Esse foi seu café da manhã. Preparado com esmero. A mesa estava posta com um simples, mas bonito jogo americano trançado em palha do México. Lembrança de sua segunda lua de mel.

A ausência da esposa permitiu o bacon e a geleia.

Estava saboroso, mas pensar nas atividades do dia que se iniciava não o deixavam degustar tais iguarias.

As perguntas começavam a ocupar seus pensamentos:

“Quem? Como? Por quê?”

Sabia apenas onde; pouco para tirar conclusões e não vislumbrava um caminho a seguir nas investigações.

Terminou seu desjejum e olhou para o relógio. 06:30 h, indicavam os ponteiros de seu Ômega de fundo branco, hoje amarelado cujos ponteiros, números, caixa e corrente de ouro reluziam. Era um lindo relógio de bolso. Presente que passava pelas mãos masculinas da família por gerações. Ele não tinha como seguir a tradição.


Era cedo, a ansiedade fora sua companheira na noite e o fizera acordar antes do despertador.

Sem ter o que fazer, iniciou a lavagem da louça, já estava acostumado ele sempre a ajudava nos afazeres do lar. Foram dois pratos, um copo, talheres e a frigideira; além da louça do jantar da noite anterior. Tudo repousava no secador menos o copo que por um raro descuido quebrou-se e agora seus cacos descansavam no lixo, embrulhados em algumas folhas de jornal velho.

O cedo da manhã previa um dia ensolarado, porém frio como o anterior e o tilintar do enfeite da janela mostrava uma brisa ainda gélida.

Boris ergueu as orelhas, levantou sua enorme cabeça negra e saiu em disparada ao ouvir, lá fora, um conhecido som seco. Passou pela abertura da porta como um raio e logo surgiu de volta com o jornal entre os dentes para entrega-lo mansamente nas mãos de seu dono que já aguardava ansioso para ler o que diziam do caso.

A primeira página estava dividida. A metade superior descrevia o longo julgamento que culminou com a condenação do serial killer que tinha tido como advogada de acusação a vítima do brutal assassinato ocorrido ha duas noites; notícia estampada na parte inferior.

O tempo tornou-se curto diante da avidez com que as notícias eram lidas e ele teve que deixar o jornal desarrumado sobre a mesa e fazer apenas um pequeno carinho em Boris, para sair apressado em direção a sua BMW.

Passou a mão carinhosamente sobre o tanque de gasolina e depois deu uma leve batida com a mão espalmada no banco cinza escuro enquanto um leve sorriso escapava devido a imagens de suas viagens quando adolescente, pelas belas estradas do país, recuperadas de suas memórias.

Seguiu a pé pela calçada na direção contrária a da noite anterior.

Os poucos minutos ganhos devido ao excelente trânsito daquela manhã o permitiram admirar as imponentes colunas do térreo, em granito preto, que guarneciam o enorme portão de metal dourado que formavam o conjunto mais significativo daquela fachada.

Autorizado subiu os três andares agora admirando a arquitetura do interior o que não pudera fazer 48 horas antes.

Sentou-se em uma cadeira lateral da recepção e consultou seu ômega, enquanto aguardava autorização para entrar.

Dra. Helena levantou-se sem demonstrar emoção ao vê-lo sob a aduela de madeira maciça trabalhada que guarnecia a porta ora aberta.

Tirou o chapéu:

“Bom dia!”

“Bom dia, tenente! Sente-se. Deseja algo? Café? Água?”

E apertou um botão que havia no canto sobre a mesa.

A porta se abriu novamente enquanto ele respondia:

“Café e água, por favor.”

“O mesmo para mim, por favor.”

“Sim senhora.”

Respondeu suavemente, porém com a voz triste, a copeira que acabara de entrar.

O ar não estava nada agradável, não pela pesada decoração dos corredores e salas, mas sim pelo ocorrido duas noites antes. Mood reparou que as pessoas andavam tristes pelos corredores. Já havia passado por isso antes e sabia que essa atmosfera se traduzia no quanto a vítima era querida.

Ela solicitou um momento antes de começarem. Enquanto ela finalizava alguns afazeres ele correu a sala com seus experientes olhos.

Ao contrário do que ele já havia visto no prédio, aquela sala era diferente. Clara, não só pelas janelas cujas cortinas estavam totalmente abertas quanto pelas paredes brancas com o teto gelo. Os móveis eram de madeira maciça com acabamento escuro. O tapete cinza escuro e a estante, com muitos livros, tinha os montantes na mesma cor dos móveis, porém, com fundo branco. A poltrona em que estava confortavelmente sentado tinha a mesma cor do tapete. Eram duas. Alguns quadros mostravam formas disformes em tons fortes e alegres, dando calor ao ambiente. Sentia-se bem ali. Ele analisava a luminária composta por dois cones vermelhos opostamente direcionados, absorto em seus pensamentos quando ela o interrompeu:

“Então tenente, imagino que vamos falar sobre o falecimento da doutora Speller ...”

Vendo que estava perdendo o domínio da situação ele interrompeu-a:

“Sim doutora Muller. Preciso de algumas informações e gostaria que não ocultasse ou deixasse de falar o que sabe. As vezes o que pensamos não ser relevante na realidade pode ser a peça esclarecedora de uma grande história.”

“Sem problemas tenente, realmente não acho que tenho boas informações para o caso, mas vou atendê-lo da melhor forma possível. Por onde deseja começar?”

“Gostaria de saber quando e como foi a primeira vez que a viu?”

Sem pestanejar ela iniciou seu relato.

“Bom, eu já trabalhava aqui quando ela foi contratada. Confesso que a primeira impressão não foi das melhores. Ela vinha do interior, vestia-se bem, contudo com roupas ultrapassadas. Os cabelos estavam presos, mas via-se que não eram bem tratados. Não que tenha algum preconceito, porém era uma desconhecida para nós e o senhor sabe que experiência e tradição nessa atividade são primordiais. Com o tempo ela foi mostrando seu valor profissional e sua postura perante todos nos conquistou e aos sócios do escritório. Em pouco tempo ela atingiu a posição que tinha quando ocorreu a tragédia.”

Mood estava atento a seus movimentos. Mãos e as vezes braços eram utilizados enquanto falava, entretanto com harmonia e graciosidade. Os olhos moviam-se com certa frequência, mas sempre terminavam nos seus ao final de cada frase.

“Pelo que vi no tribunal, a senhora estava muito bem preparada para o caso do “Serial Killer”. Sua atuação pode ser classificada como perfeita, principalmente a estratégia de se valer quase que exclusivamente das provas técnicas. Poucos as consideram tanto e o fizeram de forma tão brilhante como a senhora.”

Em um segundo ele reparou o que tinha feito. Tímido, havia se rasgado em elogios e sentia-se estranho, pois era profissional a extremo, que não se permitia desviar de sua linha de raciocínio quando arguia alguma testemunha. Ele ainda fitava seus negros olhos quando ela baixou a cabeça com a face rubra:

“Ora! Por favor, tenente! Fiz o que estudei para fazer. Acredite, não foi fácil. Quando nos contrataram para representarmos as famílias das vítimas fui designada a fazer parte da equipe da doutora Joana que seria a Advogada Líder. Eu seria a assistente principal e como o senhor já deve ter sido informado éramos sete.”

Ele a fitava atentamente, buscando detalhes nas entrelinhas de cada frase proferida por ela.

“Não havia como não estar bem informada, participei de todas as etapas do processo, pesquisas, diligenciamentos, investigações e tudo o mais para juntar as provas necessárias à buscar a condenação do Réu.”

Ela havia se refeito dos efeitos do elogio quando a copeira voltou com o solicitado. Também havia biscoitos em um pote sobre a bandeja. Bebeu dois goles de água, mexeu o café cuja fumaça mostrava a alta temperatura e o consumiu também em dois goles. Aguardou três segundos absorvendo o sabor adocicado da bebida para então, continuar seu relato: Antes, segurando um cigarro:

“Importa-se?”

Ele fez que não com a cabeça e ela o acendeu.

“Era seu primeiro caso como líder e a doutora Joana se revelou excelente nesta função. Sabia muito bem detectar o melhor de cada um de nós e se utilizava disso muito bem em prol do bom andamento dos trabalhos. Paciente, ouvia a todos e mesmo quando convicta buscava na equipe uma possível opinião que a fizesse mudar e não se furtava em fazê-lo quando convencida.”

Doutora Helena permanecia tranquila, se mostrava segura, sem a ansiedade tradicional de quem estava sendo sabatinada. Parecia que havia um ar de prazer em seu comportamento.

Ele continuava fazendo suas anotações. Não gostava do café muito quente.

“Joana ... era justa. Não havia distinção ao lidar com as pessoas, principalmente os membros de sua equipe, com quem sempre que podia dividia os elogios. O mesmo fazia quando as coisas não aconteciam como ela desejava, cobrava com firmeza sem perder a suavidade, educação e elegância adquirida com o passar dos anos na cidade grande.”

Os anos vividos na elucidação de casos de diversos tipos não deixaram passar em branco o suspiro proferido por ela ao citar o nome da vítima. Isso foi devidamente registrado em suas anotações. O café, ora morno, começou a ser sorvido em curtos goles. Foram três. Após o quarto e maior deles ele descansou a xicara vazia sobre o pires que a aguardava sobre a mesinha lateral preta. Ambos de porcelana branca com motivos florais em alto relevo e uma listra dourada na borda. Lembrou-o sua esposa, Adelaide.

“Estou vendo que a senhora tinha um apreço especial pela doutora Joana, talvez algo acima do profissional. É possível?”

“Não posso esconder que minha admiração possa ser um pouco acima sim, mas lhe garanto ser apenas por seu desempenho profissional e caráter.”

Desviou o olhar para a janela e prosseguiu:

“A história mostra o que sofremos para chegar onde estamos. Sabemos que muitos homens e mulheres maus ainda sobrevivem em escaramuças diversas. A doutora Speller era um exemplo de correção. Quem sabe não é por aí?”

Ele a fitou por demorados quatro segundos, e perguntou:

“Porque diz isso doutora? É uma afirmação?”

“De certo fez algumas averiguações iniciais e sabes que o crime é a área de atuação que mais me identifico. Foram inúmeros casos desde que me formei. Não é difícil pensar em motivos.”

“Desculpe-me doutora, pode esclarecer, especificamente o que quer dizer?”

“Tenente Mood, não estou querendo atrapalhar seu trabalho, mas...”

“Prossiga. Não se preocupe.”

Ele queria seus pensamentos e não a enrolação.

“A doutora Speller veio do interior e as histórias dizem que, desde os tempos de estagiária, atuou em vários processos que acabaram por condenar muitos dos chamados Coronéis sobreviventes daqueles tempos sombrios. Soube que teve participação ativa nesses casos e que exatamente por isso foi convidada a trabalhar conosco.”

“Pode citar suas fontes?”

“Apenas conversas de corredor. Nunca procurei saber ao certo, não tinha por que fazê-lo. Mas agora, com o acontecido, não é difícil somar A com B.”

Mood tinha um furação em sua cabeça e os olhos negros da doutora Muller sabiam disso.

“Vou pensar no que disse.”

Se recompondo. Sabia que não ia tirar mais nada desse imbróglio agora. Queria deixa-la pensar mais no que disse.

”A senhora poderia me contar se a doutora Joana tinha algum hábito que poderíamos chamar de ... estranho?”

“Tenente, como falei antes, nosso relacionamento era estritamente profissional. Mesmo nos escassos eventos do escritório não tínhamos muito contato.”

“Que tipo de eventos?”

“Comemorações por ter vencido alguma causa importante, como a de ontem, ou conquistado um bom cliente, festas de fim de ano, Natal ou aniversários, essas coisas.”

“Mesmo não tendo contato social, alguma vez viu ou ouviu conversa que possa ter despertado na senhora uma sensação estranha? Algo que pudesse sugerir uma ligação, digamos, diferente ou suspeita?”

“Conheço dessas coisas, afinal nosso forte é a área criminal, entendo o que está dizendo e onde quer chegar, porém, posso afirmar que não havia nada suspeito nas atitudes da doutora. Ela era muito discreta em suas coisas pessoais. Se havia algo, passou despercebido por mim.”

“Conheceu pessoas do relacionamento social ou alguém da família da doutora Joana?”

“Não tenente. Como disse antes nossa relação era apenas profissional.”

“Doutora, uma última pergunta.”

“Sim.”

Ela se ajeitou na cadeira, mais uma vez deixando escapar um leve sorriso.

“Onde a senhora estava na noite em que aconteceu o crime?”

“Não hesitou e como se já esperasse a pergunta, respondeu:

“Tenente, aqueles eram os últimos dias que antecederam o fim do julgamento. Havíamos trabalhado muito na busca de provas e evidências. Tinham sido dias de trabalho intenso organizando as coisas entre as audiências... estas estavam sendo extremamente desgastantes devido a expertise dos advogados de defesa...”

Ele a interrompeu.

“Sim, mas a senhora, a assistente principal, deixou-a só, logo na noite anterior ao último dia do julgamento?”

“Como estava dizendo, tenente, estávamos todos muito cansados, mas eu estava disposta a permanecer junto dela até quando necessário. Não fui a única que insistiu, mas ela nos convenceu para que fossemos para casa. Iria fazer uma última leitura em suas anotações e então dormir no escritório.”

Seus olhos correram em direção a segunda poltrona onde descansava uma valise de viagem, fechada. Desviou os olhos e continuou:

“Não nos restou opção a não ser deixa-la só em seus pensamentos. Fui para casa, tomei um banho, comi alguma coisa e fui dormir.”

“Alguém pode comprovar sua história?”

“Infelizmente não. Moro só e o prédio não tem porteiro noturno. Algum vizinho pode ter escutado minha chegada, porém não posso afirmar. Mas saímos, quase que todos da equipe, juntos, do prédio. O motorista do taxi, talvez, mas como encontra-lo?”

“Vai viajar doutora Muller?”

Olhando para a valise.


“Não tenente, temos o habito de ter uma valise no escritório para alguma emergência. Essa, por exemplo, tem as roupas e acessórios que usei ontem no tribunal.”

E passando a mão no colar de pérolas que ornamentava seu lindo pescoço:

“Estou levando para casa a fim de renovar.”

“Mulheres. Essas lindas mulheres.”

Ele pensou e continuou:

“Ok doutora, agradeço seu tempo e gostaria de poder contatá-la novamente caso necessário. Sei que vocês, advogados, costumam viajar bastante, peço apenas que se for deixar a cidade ou país informe seus contatos, hotel, local da reunião ou outro evento. Essas coisas desimportantes que a senhora já deve saber.”

Sorriu enquanto ouvia a resposta que já esperava.

“Ok tenente! Conheço os trâmites, fique tranquilo que estarei ao alcance. Não há nada programado neste sentido para esses dias. Qualquer mudança na agenda eu mando informar.”

Apertaram as mãos por um segundo além do normal enquanto os negros olhos da doutora Muller cruzavam com os seus.

“Sam! O de sempre.”

Samuel trouxe a costumeira dose de tequila que foi sorvida em um único gole e diluída em seus pensamentos. Estes estavam estranhamente divididos entre as informações colhidas e algo que não entendia direito, portanto, sem sentido.

Reparou que já estava no terceiro “shot” e atribuiu a ele esta sensação estranha, mas agradável.

Após o banho gelado, um sanduiche fez as vezes do jantar. Pão esquentado no forno, manteiga, queijo e salame hamburguês, seu preferido. O suco natural de laranja, sem açúcar, ajudou no sabor completando o “jantar”.

Estava cansado e ainda sob resquícios da tequila. Acarinhou Boris e deitou-se para se perder entre seus pensamentos, sensações e álcool.


1 de dez. de 2012

4º CAPÍTULO – O JULGAMENTO


A sala de audiências estava repleta. Eram parentes das vítimas, membros de associações diversas, curiosos que com muito custo obtiveram autorização para estarem ali. Jornalistas e guardas para manter a ordem.

A revolta do povo era grande foram vinte e três assassinatos antes de a polícia conseguir prender o suspeito. Eram jovens mulheres entre vinte e cinco e trinta anos todas mortas após serem abusadas sexualmente de forma brutal.

O assassino não tinha distinção de lugar, raça, religião ou classe social e maneira de executar suas vítimas, isso dificultou as investigações e prendê-lo foi uma questão de sorte.

Com exceção de as vítimas serem mulheres, a única coincidência era a forma de se livrar dos corpos. Ele as esquartejava e enterrava os pedaços em pequenas covas espalhadas pelos jardins da cidade.

Sentado vestindo roupas de presidiário com listras horizontais laranjas e pretas, com as mãos algemadas e os pés acorrentados a um ponto chumbado no chão. Sua cabeça, com exceção quando bebia água, permanecera abaixada durante todos os cinco dias anteriores e assim continuou neste último e decisivo dia.

Com aproximadamente um metro e oitenta e cinco centímetros, era forte, corpo atlético, porém, com uma ligeira barriga fruto dos quarenta e cinco anos vividos, segundo sua ficha, na mais perfeita ordem. Trabalhava na área administrativa de uma multinacional, tinha uma vida social regrada, sem nada que indicasse ser a pessoa que cometera tamanhas atrocidades. Seus amigos ao tomarem conhecimento dos fatos ficaram perplexos, já que não havia nele indícios de ser uma pessoa fora dos padrões e estavam presente.

Aquela fora uma dependência muito importante na recente história do país. Por aquela imponente sala havia passado a maioria dos corruptos, bandidos, estelionatários, e demais membros da corja que governara nos anos chamados negros da história. Todos foram julgados, condenados e agora prestam serviços diversos nos presídios espalhados pelo território nacional. Seus bens foram confiscados, transformados em escolas, postos de saúde, hospitais ou foram leiloados e o valor obtido, investido na transformação do país.


Bastante amplo, o acesso se fazia por uma pesada porta dupla trabalhada em madeira maciça onde a figura da Justiça segurava a balança e a espada nas mãos e tinha seus olhos bem abertos na busca daqueles que não a respeitassem. Abertas as portas havia uma circulação central ladeada por treze fileiras de confortáveis cadeiras onde ficava o público, familiares da vitima e do réu. As paredes eram forradas de madeira clara. Muito bem iluminada, tinha ao fundo a grande bancada do juiz em um nível acima dos demais, atrás da qual a única parede branca, sem o revestimento de madeira. A sua direita, de frente para a plateia a cadeira do réu; o balcão dos jurados ficava à esquerda, à direita do réu ficavam os técnicos responsáveis pelas análises das evidências e a sua frente a mesa da taquigrafa. Entre a plateia e o balcão do juiz estavam duas grandes mesas separadas pela circulação, onde ficavam os advogados sendo que os da defesa à esquerda. Exatamente três metros e meio separavam essas mesas da bancada do Juiz.

Era nesse espaço que os advogados apresentavam suas alegações com eloquência.

A mesa do juiz aguardava sua excelência, os treze jurados já estavam em seus lugares assim como a taquígrafa, os advogados de acusação e defesa com respectivos auxiliares e membros da equipe de técnicos e policiais que investigou o caso.

Os presentes estavam apreensivos e ávidos pelo fim dos trabalhos daquele dia. Havia sido cinco dias de uma bela batalha jurídica. A defesa trabalhara muito bem com suas testemunhas bem como com as da acusação e esta apresentou as provas de forma contundente utilizando-se de testemunhos técnicos teoricamente irrefutáveis.

Todos haviam estado ali durante todo o julgamento com apenas duas exceções.

A ausência da advogada de acusação Dra. Joana Speller estava sendo sentida por todos. Havia se tornado bastante conhecida pelo caso em questão e vinha sendo muito bem quista devido a forma como vinha fazendo o seu trabalho.

Era uma profissional serena, sensata, porém bastante enfática nos seus discursos e observações. Utilizava como ninguém as provas técnicas, os depoimentos bem como de seus apartes às falas da defesa.

Os sócios do escritório estavam apreensivos com essa ausência e pelo fato de terem tido que nomear como substituta a Dra. Helena Muller, advogada auxiliar da Dra. Joana, portanto única, da equipe da Dra. apta a substituí-la no caso; já que o Dr. Olavo Negreiro, o outro advogado da mesma equipe, estava tecnicamente impedido de fazê-lo.

A belíssima morena de olhos negros e corpo escultural mostrava-se tranquila. Vestia um discreto taier cinza chumbo, uma blusa cinza claro, meias pretas assim como os sapatos salto dez. A maquiagem e o perfume eram pouco notados, porém, não se podia dizer o mesmo do belo colar de pérolas que adornava seu lindo pescoço.

A presença de Mood era a outra exceção.

O dia estava ensolarado, mas não o suficiente para aquecer a cidade. Era uma das manhãs mais frias daquele outono e muitos vestiam casacos, alguns usavam luvas.

Helena parecia não estar abalada pelo ocorrido e se mantinha calma como se já tivesse passado por aquela experiência antes. Trocava algumas informações com os de sua equipe, mas não discutia a estratégia que iria seguir na defesa dos agora seus clientes. Sua equipe insistia em fazê-la seguir a estratégia traçada pela Dra. Joana e Helena ouvia as argumentações sem mostrar sua decisão. Ela sabia o que estava fazendo.

A entrada do Juiz, reforçada com o bater do martelo, silenciou os presentes. Após o tradicional burburinho de pessoas se aprumando em seus lugares e as devidas apresentações, foi feito um breve relato dos cinco últimos dias.

Terminado o relato, foi dado espaço para o que, pelo desempenho de ambos durante todo o julgamento, se esperava ser o show dos advogados

Com o tom de voz grave e alto o suficiente para que todos tivessem acesso a suas palavras, o da defesa iniciou seu longo discurso enumerando quase que uma a uma as testemunhas de ambas as partes. Muitas vezes se utilizando dos braços e as vezes do corpo em movimentos sincronizados, ele citou possíveis contradições e coincidências. Recorreu a casos anteriores como possíveis jurisprudências ao caso em questão e ainda se utilizou de algumas provas técnicas para só então, após exatos cento e treze minutos e seis copos de água, finalizar alegando o réu inocente e, fitando os jurados um a um, pediu sua absolvição.

Após as três fortes batidas do martelo de madeira na bancada mais alta, para calar os comentários do público que mostrava toda sua indignação, foram sessenta e sete segundos de silêncio. Quebrado apenas pelo barulho do virar de folhas provocado pela Dra. Helena, em uma última olhada em suas anotações.

Ela bebeu um gole de água, se levantou, ajeitou a toga que charmosamente pendia para a direita e iniciou seu breve e brilhante discurso.

Fitando um a um cada jurado e algumas vezes a plateia ela falou brevemente dos testemunhos. Contudo, relembrou detalhadamente cada uma das provas técnicas. Mirou os policiais e técnicos muitas vezes e ao fazê-lo, com uma expressão serena, mostrava em suas palavras o quanto seu trabalho tinha sido importante na elucidação do caso.

Quando citava o réu o fazia fitando-o com ar de censura, mas sem ódio. E, após aproximadamente setenta minutos e quatro copos de água, finalizou dizendo que não poderia haver dúvida da culpa do réu e solicitou a pena de morte.

A plateia só se conteve após mais quatro batidas de martelo. Mais alguns segundos de silêncio e o juiz determinou que os jurados se recolhessem para deliberar e retornar com o veredito.

O barulho de cadeiras sendo arrastadas e os comentários dos presentes foi a música que tomou conta do ambiente durante as duas horas e dezoito minutos que os jurados levaram para se decidir.

A música sessou enquanto o juiz recebia o veredito e o transmitia a plateia ansiosa pelo resultado.

O volume da música tornou-se ensurdecedor com os gritos e palmas dos presentes assim como os calorosos abraços e cumprimentos ao advogado “vencedor”.

A única vez que o réu levantou a cabeça foi para ouvir o que os jurados haviam decidido.

A condenação à pena de morte por enforcamento era o motivo para tanta festa.

Dois enormes policiais o levantaram e o levaram para dentro de uma sala com destino a prisão municipal.


A equipe estava aliviada e surpresa pelo fato da Dra. Helena ter mantido a estratégia desenhada pela falecida Dra. Joana.

Sem esboçar reação, a não ser um breve sorriso, ela recebeu o convite para uma reunião, no dia seguinte, para seus patrões definirem seu futuro no escritório.

Dra. Helena, apesar da vitória, mantinha-se serena e pensativa. Ela seria a próxima a ser ouvida por Mood.

Ele a cumprimentou parabenizando-a pela brilhante atuação e se despediu admirando seus olhos negros.

22 de out. de 2012

3º CAPÍTULO - O CASAMENTO





Dezessete anos, esse era o tempo que estavam juntos.

Conheceram-se no interior. Ele um medíocre estudante de direito. Notas médias eram constantes em seu currículo. Baixo, seu um metro e setenta de altura não permitia que ele jogasse basquete, seu esporte favorito, mas o corpo atlético e suas tiradas bem humoradas o fazia conhecido por todos.

Mas era tímido com as mulheres. As conhecia muito bem. Suas teorias eram comprovadas por seus amigos mais desinibidos e isso o tornava querido entre os rapazes.

Sorrateiramente namorou poucas, mas com elas chegou onde nenhum de seus amigos imaginaria chegar naquela época. Era discreto e elas gostavam disso.

Ela, moça prendada havia sido educada pela mãe para casar. Seu pai era um fazendeiro mal sucedido daqueles que não permitiam liberdades às mulheres.

Passara a infância tolhida pelos desejos do pai e carinhos da mãe superprotetora. Filha única, seu parto complicado foi o que impossibilitou a vinda de novos irmãos. Isso aumentou a pressão que recebia de seu pai que ignorante, culpava-a constantemente.

Era uma viagem de férias. Ele a avistou de relance quando pedia informação em uma mercearia e ela entrou iluminando o recinto com sua beleza.

Loura, Cabelos longos presos em coque cujos fios soltos bailavam ao sabor da brisa sobre seu pescoço. Olhos verdes, um metro e sessenta e seis aproximadamente. Pele clara e a roupa escura e discreta deixava transparecer o belo desenho de seu corpo.

Empinou o peito, ajeitou o topete e com a voz grave cumprimentou:

- Boa tarde.

Ela balançou a cabeça como se respondendo positivamente. Em seguida a baixou em definitivo. O sorriso que ele não viu teria sido suficiente para ele insistir na conversa.

Pegou suas compras e saiu da mesma forma como entrou. Calada.

Durante os dois dias em que esteve na cidade não mais a viu.

Tornou-se conhecido devido a sua bela BMW preta que o levava de cidade a cidade na viagem sem fim. Viveu as delícias da noite da cidade como ninguém. Divertiu-se com outras e partiu.


A solidão da viagem lhe era agradável. Tinha o espírito aventureiro, estar livre sem ter de dar satisfações a terceiros e poder decidir seu destino era como alimento para seu corpo doído pelas estradas esburacadas.

Estava nelas fazia quinze dias e as experiências vividas e sofridas seriam muitas vezes norte para as decisões de sua vida futura.

Mas já não conseguia tirá-la de seus pensamentos. O desejo de tê-la nos braços tornava-se cada vez mais preponderante. Seus pensamentos se confundiam com sonhos e vice versa.

Após se questionar diversas vezes, decidiu voltar. Foram três dias percorrendo caminhos dessa vez conhecidos.

Chegou à tardinha e dirigiu-se a mercearia onde a conhecera. Estava fechada. O prefeito havia decretado luto municipal de três dias devido a morte do juiz da cidade.

Não sabia como fazer para encontrá-la. Era uma cidade pequena, mas mesmo assim não conseguia acha-la em suas andanças.

A busca aumentava seu desejo e tê-la tornara-se questão de honra.

Na segunda noite, no balcão do bar mais movimentado da cidade, esbarrou com o jovem que havia lhe atendido na mercearia.

Se apresentou tomaram vários tragos e fumaram alguns cigarros. Pareciam amigos de longa data, mas eram apenas conhecidos. Porém, tinham interesses e esses interesses os aproximavam.

Lá pelas tantas, perguntou pela garota e seu novo amigo fechou a cara por segundos, antes de contar o motivo.

Falou da família da moça, principalmente do pai que era um senhor que a vida, desprovida de sorte, havia transformado em um mal educado cujo único tesouro era a filha que amaldiçoava pela ausência de um varão.

Calou um curto tempo enquanto confirmava que aquele forasteiro seria a sua salvação. Precisava falar com Adelaide.

E continuou a narrativa das mazelas em que a desejada vivia.

Conseguiu o endereço e após novos tragos e cigarros se despediram com um forte abraço.

Moisés, o balconista, seguiu até a Travessa dos Imigrantes e sorrateiramente, sob uma janela azul escura da casa branca assobiou como coruja.

A janela se abriu vagarosamente mostrando uma linda moça que o ajudou a subir.

A manhã se aproximava. O sol se mostrava tímido entre as espessas nuvens. Os galos anunciavam as cinco horas e os agricultores e pecuaristas iniciavam suas tarefas como todas as manhãs.

Os campos estavam mais verdes pela humidade da noite. O rio que corta a cidade estava reluzente, mesmo com a timidez do sol.

A cidadezinha começava seu dia entrando no seu tradicional ritmo lento, mas constante. Ao som das rodas das carroças, cascos dos cavalos e mulas.


O viajante despertou de mais um de seus sonhos, dessa vez, vivido sob lençóis de algodão macios e cheirosos da pensão onde estava hospedado. Vestiu uma roupa simples e desceu para o desjejum.

Sentou-se à mesa mais próxima da janela por onde poucos e fracos raios de sol tentavam aquecer o ambiente. Saboreou os pães, frios e suco feito de laranjas frescas. Após bebeu um café puro, sem açúcar.

Voltou para o quarto, apoiou-se no parapeito da janela, acendeu um cigarro e lá ficou apreciando a vista da parte baixa da cidade.

Foram aproximadamente vinte e cinco minutos em devaneios. Apagou o pouco que restava do cigarro e voltou-se para dentro.

Fez a barba, escovou os dentes e banhou-se tranquilamente com água morna. Secou-se e vestiu sua melhor roupa. Perfumou-se.

Cumprimentou o atendente ao passar pela pequena recepção. Este devolveu o sorriso com simpatia da boca com poucos dentes de onde pendia um toco de cigarro de palha.

Passou pela mercearia, comprou uma caixa de charutos e o que mais se parecia com um buquê de flores, montou em sua reluzente moto e partiu.

Descobriu o motivo da dificuldade em encontra-la ao sair dos limites da cidade, mas não muito. Demorou em encontrar a Travessa dos Imigrante.

Ficou na esquina, em uma posição que poderia ver a casa de número 37 sem ser visto. Era uma casa humilde, mas bastante sólida. Estava com a pintura gasta devido as intempéries, porém percebia-se o zelo em sua conservação.

Atrás das janelas azuis tremulavam ao sabor da brisa branquíssimas cortinas de renda. Um vaso de flores descansava sobre o peitoril de cada uma das quatro janelas.


A cerca de madeira crua dava limite ao terreno assim como às galinhas que incansáveis, ciscavam o chão de terra batida enquanto tomavam conta de seus curiosos pintinhos.

A sombra de uma frondosa mangueira impedia ver muito além. Um forte e bonito vira-latas preto descansava na soleira da porta entreaberta.

Ele se aproximou a pé, havia deixado a moto distante para não incomodar com o barulho e bateu palmas assim que chegou em frente a porta.

O cachorro ergueu-se, latiu três vezes e se manteve ereto em posição de alerta.

Uma senhora de cabelos grisalhos apareceu:

- Dia!

- Bom dia minha senhora! Tudo Bem!

- Tudo. Algum problema?

O cachorro voltou a descansar.

- Não, está tudo bem. Estou procurando uma senhorita de longos cabelos louros, olhos verdes. A senhora a conhece?

- Ora seu moço, com essa descrição parece ser minha filha. O que o senhor deseja com ela.

Nesse exato momento chega o pai da moça. Ainda suando, a roupa desarrumada e suja de terra mostrava que acabara de voltar da lida. Desconfiado passa a frente da senhora e acendendo um cigarro de palha pergunta:

- O que está acontecendo aqui? Quem é esse que você está dando trela?

A mulher baixou a cabeça e sem emitir som entrou.

O viajante já esperava por isso e mantendo-se tranquilo, apesar de estar sendo encarado pelo dono da casa, ofereceu a caixa de charutos e prosseguiu:

- Não se preocupe meu senhor! Meu nome é Eduard Mood, sou estudante de Direito. Estou de férias na faculdade em viagem pelo interior do país. Na semana passada estive na cidade e quando pedia informações na mercearia uma linda donzela apareceu. Assim que bati os olhos nela, vi que era uma dama muito bem criada, em uma família, que assim como eu, respeita as tradições transmitidas pelas gerações. Ao cumprimenta-la, como era esperado, ela baixou a cabeça e saiu sem emitir som. Encantei-me profundamente, mas não a vi mais. Depois de alguns dias viajando resolvi voltar em busca de tão encantadora senhorita, que não saia de meus pensamentos. Mas mesmo fazendo buscas insanas pela cidade só consegui saber onde encontra-la ontem e a noite tornou-se muito longa, na espera do momento de conhecê-la.

O velho abrira a caixa e cheirava um dos charutos após verificar ser o de sua marca favorita ausente há anos de sua convivência devido a escassez de dinheiro para compra-los. Ele sorriu:

- Francisco Neves.

Mood respondeu com um discreto sorriso agradecendo mentalmente à Moisés pela dica.

- O que o senhor pretende se permitir que conheça minha filha?

- Senhor Francisco, o que poderia ser? Desejo cortejá-la com as melhores das intenções e se tudo der certo e se o senhor permitir, me casar e constituir uma grande e feliz família.

Francisco pensou um pouco.

- Pois bem, o senhor me parece um bom rapaz. Eu vou pensar. Volte à tardinha para conversarmos e dependendo da prosa veremos se deixo conhece-la.

Mood estava feliz, porém havia reparado que, pela maneira como falava, o senhor Francisco não era nenhum bicho do mato. Mas isso não seria problema, ele gostava de ler e viajara por muitos lugares pelo mundo; conversar com Francisco não seria problema.

A tarde se esvaia com a chegada da noite, mas ainda era possível ver as aves se dirigindo para seus ninhos assim como os homens caminhavam para suas casas após mais um dia de labuta.

Estava tenso quando foi muito bem recebido por Francisco que de banho tomado e roupas limpas parecia bem mais afável.

Ele ofereceu um dos charutos rapidamente aceito. Acenderam quase ao mesmo tempo e cada um soltou sua baforada inundando a sala com odor forte de fumo cubano.

A velha e ainda cabisbaixa mulher trouxe uma bandeja de madeira carcomida coberta por um branco pano de bordas rendadas sobre o qual descansavam duas canecas de café fervendo e uma tigela de torradas amanteigadas feitas por ela.

Cada um pegou uma caneca e iniciaram a conversa.

Foram exatos noventa e cinco minutos de prosa após a qual os dois já se sentiam amigos. Contudo, com restrições.

Francisco então se sentiu satisfeito e apresentou sua filha.

Ela estava radiante e seus olhos assim como dentes brilhavam internamente. Seu pai não precisava saber o quanto estava feliz.

Em apenas três meses eles se conheceram, se entenderam, se apaixonaram e se entregaram ao amor pela primeira e única vez antes do casamento que se realizou de forma simples e rápida devido a discreta diferença que se notava na cintura da então donzela.

Moisés estava radiante como padrinho e grande amigo dos noivos, mas por dentro havia uma ponta de tristeza, sabia que nunca iria conviver com seu primeiro filho.

Foram dez anos de amor, respeito e carinho; mesmo com a perda de seu filho que, como o parto dela, não permitiu outros.

Mas fazia sete anos que ele não estava mais gostando daquela vida.

Sua esposa tornara-se ciumenta e autoritária. A convivência não era mais a mesma devido a desconfiança que ora norteava sua relação.

Diferente dos dez primeiros anos, quando a alegria era presente e a felicidade era hóspede constante em seu lar, agora ele tinha que dar satisfações desnecessárias, pois passava quase que todo o tempo trabalhando em prol do sustento do lar e caprichos da mulher.

Isso a incomodava porque começara a achar que ele tinha outra, quando na realidade ele sempre fora fiel.

Essa desconfiança foi o elemento principal a minar tão segura e bela relação.

As investigações do assassinato mal haviam começado, mas ele estava exausto caminhava tranquilamente. Não estava com pressa de chegar em casa.

A chave girou e o som de quatro patas já eram ouvidas. Com a porta aberta ele se agachou na expectativa do impacto. Boris vinha correndo com a boca aberta, a imensa língua pendurada, o rabo sacudindo como nunca e se jogou sobre Mood mostrando sua saudade e amor incondicional.

Um carinhoso Stafordshire Bull Terrier, preto com as quatro patas brancas. No peito uma mancha também branca padrão da raça. Forte, saudável e extremamente educado resultado da excelente criação. Muito brincalhão com os humanos, principalmente com as crianças. Um excelente cão querido por todos que o conheciam.

Foram longos segundos de afagos, lambidas, arranhões, mordiscadas até que ao se levantar e com Boris ainda em seus calcanhares ele viu o bilhete em cima da mesa de jantar.

Seu sorriso se mostrava a cada palavra lida:

“Querido, Vou até a casa de meus pais e estarei de volta em três dias. Adiantei suas refeições que estão no lugar de sempre; é só colocar no fogão  para aquecer. Saudades e com amor, Adelaide.”

Ainda sorrindo pensou:

- Quem lê pensa que está tudo bem.

Seriam três dias de tranquilidade.

A comida estava deliciosa, ele nunca questionaria a capacidade de Adelaide administrar uma casa, muito menos a qualidade e sabor de sua comida. Ela realmente seria uma mulher perfeita se não fossem seus devaneios.

Com Boris ao pé da cama, Mood adormeceu ao som do rádio que tocava baixinho.


28 de ago. de 2012

2º CAPÍTULO - O CORPO


O sol surgia ainda tímido entre as alvas nuvens que insistiam em permanecer acordadas. A lua ainda era vista no lado oposto, iluminada por ele.

Santa Maria é uma cidade de médio porte. Com dois milhões, trezentos e quarenta e três mil habitantes, segundo a última pesquisa realizada dois anos atrás.

Um dos municípios mais prósperos do estado de São José é muito bem governado a quarenta anos. Desde que um grupo de empresários e comerciantes bem sucedidos resolveu concorrer as eleições municipais daquele histórico 1890.

São José é um dos oito estados do país e tem forma de trapézio. Não é uma ilha mas é cercado de água por todos os lados. Ao norte assim como ao sul os rios Bello e Sertão são os limites, à oeste o Pirapora; o maior deles e a leste o mar com suas belas ilhas.

Santa Maria está localizada ao norte do estado, no vértice formado pelo mar com o Rio Bello. A beleza do conjunto formado por suas montanhas e litoral faz do município um dos mais conhecidos polos turísticos do país.

É onde se concentram as sedes das maiores empresas o que faz da cidade o centro econômico do país.

São Joaquim, nome dado em função de sua colonização é um pequeno país, com aproximadamente quarenta e quatro milhões de habitantes, farto em riquezas naturais. O clima é tropical, o solo é fértil e é um grande produtor de petróleo e minério de ferro.

O relevo é bastante peculiar. O país é cortado por três cordilheiras que formam um grande “F”, onde se concentram suas exuberantes florestas.

Cordilheiras intercaladas por planícies e planaltos onde prosperam sua agricultura e pecuária de maneira tal que suprem com folga as necessidades do povo. O excesso é mundialmente disputado devido a qualidade com que são produzidos.


Na planície mais ao norte localizam-se suas pequenas, mas importantes indústrias; hoje bastante conhecidas pela qualidade dos produtos fabricados.

Esse conjunto de particularidades fez com que São Joaquim se tornasse uma das maiores potências econômicas no planeta.

Mas nem sempre foi assim.

A partir de sua descoberta São Joaquim tivera sucessões de governos mal sucedidos. Devido a natureza extrativista de seus colonizadores, os governantes eram corruptos e incompetentes. Foram quase sete séculos de destruição, comércio ilegal, aniquilação da fauna, desmatamentos, prostituição, exploração excessiva com a cobrança de impostos exorbitantes e desrespeito as leis. Tudo isso feito sob o frágil véu formado pelas belezas e fartura de produtos nativos.

A saúde como a educação não eram prioridade e com isso mantinham o povo distante da real situação. Apenas uma pequena parte da população tinha acesso a uma boa educação e sistema de saúde de qualidade. Era número irrisório que não conseguia decidir nada com seus votos.

A maioria era mal nutrida e totalmente desinformada. Era mantida nessa situação a custa de auxílios alimentação e escola, postos de fornecimento de alimentação de baixo custo e outras ações populistas.

Como se isto não bastasse, esportes com baixo investimento eram utilizados como diversão como mais uma forma de esconder a realidade.

Grande parte da mídia era corrompida e com incentivos a essas ações e Projetos assistencialistas capengas davam às tristes Crianças Esperança assim como a seus pais carentes de dignidade.

Sob o pretexto de uma nova maneira de consumir o mundo, foi criada uma onda pró-ecologia visando um mundo melhor e sustentável.


A ideia era ótima, mas a forma como fora implementada não foi. Criaram organizações que receberiam parte dos impostos recolhidos diretamente e com isso diminuir-se-ia a possibilidade desse dinheiro se perder nas mãos dos políticos corruptos.

Mas esses políticos de alguma forma se associaram a muitas dessas organizações invalidando todo o processo.

A corrupção era tanta que se instituiu em todas as camadas sociais. Desde o tráfico e comércio de drogas, passando pelos produtos piratas, pelo jeitinho com que se resolviam os problemas, pela polícia, pelos órgãos públicos culminando nos altos escalões governamentais. Pouco da engrenagem econômica do país passava incólume por essa estrutura.

Terras ditas improdutivas eram distribuídas àqueles que não as tinham, em mais uma medida social, mas na realidade nada mais era do que um movimento organizado por pessoas de posse para se beneficiar de alguma forma.

Em 1876 iniciou-se, muito timidamente, uma revolução que viria mudar a história do país.

Alguns poucos fazendeiros, empresários e comerciantes, cansados de tantas injustiças resolveram se unir em reuniões que logo tornaram-se movimentos com a criação de um partido a fim de concorrer as eleições.

Um movimento inteligente, pacífico que começou com esclarecimentos às classes desfavorecidas, informando que eles tinham direito a uma vida melhor e que a única forma de obtê-la seria mudar seu comportamento bem como substituindo os governantes, origem do problema.

Foi um árduo trabalho de educação que só começou a surtir efeito em meados de 1880.

Até então muitos foram mortos por assassinos de aluguel cujos contratantes não eram desconhecidos.

O Partido da Plena Democracia, PPD, foi se consolidando e concorrendo às eleições.

Em cada uma delas o número de eleitos foi aumentando até se tornar maioria e em 1920 conseguiram eleger o Presidente, cinco governadores e a maioria dos prefeitos, Senadores, Deputados e Vereadores do país.


A revolução havia se consolidado sem o derramamento de única gota de sangue, a não ser aquelas dos brutalmente assassinados no início do processo.

As ações que viriam a consertar o país tiveram início e as mais importantes foram:

Suprimiu-se cem por cento das mordomias oficiais e foram leiloados todos os objetos provenientes desse corte. Destinaram parte do valor obtido na construção e manutenção de postos de saúde distribuídos em todos os municípios possibilitando a criação de um Plano de Saúde Preventivo.

A outra parte foi utilizada para criar institutos de pesquisa científica, empregando centenas de jovens cientistas a fim de aumentar a competitividade e produtividade da nação.

Reduziu-se o salário de todos os funcionários do governo, dos deputados e dos altos funcionários públicos. Com esse montante criou-se um fundo que dá garantias de bem-estar para idosos "improdutivos" em difíceis condições financeiras que garantam um salário vitalício. Tudo isso sem alterar o equilíbrio do orçamentário.

Aboliu-se o conceito de paraíso fiscal e emitiu-se um decreto presidencial que criou uma taxa de emergência de aumento de impostos a incidir sobre os vencimentos e transações de todas as famílias mais abastadas. Com esse dinheiro sem afetar um só tostão do orçamento, contratou milhares de recém-diplomados desempregados, como professores na educação pública.

Implementou-se a cobrança de impostos apenas no início da cadeia comercial de alimentos e bens consumíveis ou imóveis permitindo melhor controle, menor tributação, maior arrecadação e diminuir a “máquina” fiscalizadora.

Privou-se as Igrejas de subsídios estatais que financiavam exclusivas escolas privadas, e pôs em ação um plano para a construção de milhares de creches e escolas primárias, a partir dum plano de recuperação para o investimento em infraestrutura. nacional.

Criou-se um "bónus-cultura", um mecanismo que permite a qualquer pessoa deixar de pagar impostos se este se estabelecer como uma cooperativa e abrir uma livraria independente contratando, ao menos, dois funcionários a partir de uma lista nacional de desempregados.

Implementou-se uma efetiva política de controle de natalidade com resultados significantes já no primeiro ano de governo.

As escolas passaram a ensinar civilidade aos estudantes desde a tenra idade fazendo-os entender que o respeito ao outro, à coisa pública e a natureza são imprescindíveis para um bem viver.

Construiu-se dezenas de condomínios de casas populares com infra estrutura e transporte de qualidade para a população carente. Para ser proprietário de um desses imóveis o contribuinte se utilizaria de um financiamento específico oferecido pelo governo. Com isso as favelas foram retiradas dos morros e em seu lugar foi feito replantio de vegetação nativa recuperando cem por cento da área desmatada.

Lançou-se um processo que dá aos bancos uma escolha: Aquele que ofereça empréstimo bonificados às empresas do país que produzem bens; recebe benefícios fiscais. E aquele oferece financiamentos a custa de juros financeiros; paga uma taxa adicional.

Criou-se Projetos de incentivo a agropecuária com a garantia de compra dos produtos com no mínimo quinze por cento de lucro do que fora comprovadamente gasto na sua produção.

Acordou-se com as forças armadas de utilizar seu efetivo, equipamentos e máquinas, bem como seu conhecimento para abrir novas estradas e ferrovias para escoamento da produção.

Incentivou-se parcerias com empresas idôneas a fim de reformar e ampliar a malha viária permitindo a cobrança de pedágio, mas somente após a conclusão das obras.

Prendeu-se os corruptos e recuperou-se grande parte do que havia sido usurpado. O montante foi imediatamente direcionado a reforma das escolas e hospitais e construção de novos. Os imóveis foram colocados a leilão cujo resultado fora aplicado em saneamento básico.

Reformou-se os presídios aumentando o número de celas permitindo uma para cada quatro presos em contrapartida eles deveriam trabalhar produzindo parte de seu alimento, ou servir de mão de obra para os serviços em obras públicas, ou produzir itens cujo resultado da comercialização seria dividida sendo cinquenta por cento para o preso e o restante para o estado cobrir as despesas de manutenção dos presídios.

Aboliu-se o voto obrigatório.

Com essas e outras medidas o país tornou-se mais seguro, produtivo, com um povo educado, capaz e com elevado nível cultural e econômico. Os índices de saúde diminuíram sensivelmente com a erradicação de epidemias tais como a dengue e gripe suína; além de reduzir quase a zero a pobreza os acidentes, a mortalidade infantil, o número de moradores de ruas, etc.

Não conseguiram acabar a violência, mas reduziu-se sensivelmente seus índices.

Os primeiros funcionários começaram a chegar. Porteiros, garagistas, serventes, mensageiros, seguranças, copeiras e faxineiros. A maioria ainda no vestiário preparando-se para assumir suas funções.

Conversavam amenidades.

Os homens o assunto principal era a grande vitória do time de maior torcida sobre o seu maior rival. Mas o mais discutido era o novo uniforme com que o time se apresentou. As listras horizontais rubro negras estavam mais largas dando ao conjunto um ar de sofisticação. A estrela dourada sobre a de prata aliadas as outras seis vermelhas, mostravam suas últimas conquistas. Todos elogiavam enquanto vestiam seus uniformes de trabalho.


O almoço de domingo ou as peripécias amorosas eram os assuntos das mulheres enquanto se maquiavam, penteavam ou se vestiam.

Aos poucos cada um foi se dirigindo a seu posto de trabalho, enquanto as vozes iam se dissipando no ar.

O relógio da Matriz mais uma vez se mostrava. As poças de água da chuva lutavam contra a força do sol que começava a esquentar a manhã daquele belo dia.

As nuvens assim como a lua já haviam se retirado para o merecido descanso, após noite tão conturbada.

Os pássaros já eram ouvidos na busca do café da manhã enquanto revolviam as folhas derrubadas pelo casal que passara a noite dançando.

Apenas um segundo após a sétima badalada a morte se faz presente mais uma vez com um novo e longo grito.

A ficha policial estava preenchida e entre outros dados se lia:

TESTEMUNHA: Swelem da Silva.

CONDIÇÃO: Primeira testemunha a ver a cena do crime.

IDADE: 28 anos

SEXO: Feminino

PROFISSÃO: Faxineira

RELATO: “Cheguei ao prédio às seis horas da manhã e, como faço todos os dias após bater o ponto, fui tomar café na copa dos empregados que fica no subsolo próximo ao vestiário. Às seis e meia troquei de roupa. Mais ou menos às sete horas da manhã subi as escadas para começar o meu dia de trabalho. Fui direto ao terceiro andar, onde inicio. Faço faxina no terceiro e segundo andares. Outros fazem a faxina dos demais. Eu sempre começo a limpeza pela sala da doutora Joana e venho limpando as outras salas e o corredor até chegar na escada. Quando abri a porta e vi aquela cena horrorosa. Dei um berro e saí correndo. Só fui parar na portaria, onde alguns colegas me seguraram e após um tempo, consegui me acalmar.”

OBSERVAÇÕES COMPLEMENTARES: Mesmo termos perguntado diversas vezes, a depoente sempre respondeu não ter mexido em nada e que nem chegou a entrar na sala onde se encontrava o corpo. A testemunha relata que, devido a diferença de horários, sua ralação com a vítima era estritamente profissional. Limitava-se na solicitação de limpezas esporádicas provenientes de derramamentos de líquidos, farelos de lanche ou similares; ou substituição de sabonete e outros insumos do banheiro.

Não havendo mais o que acrescentar a testemunha foi liberada com os avisos de praxe.

VÍTMA: Joana Speller

IDADE: 36 anos

PELE: branca, porém bronzeada sem marcas a considerar.

CABELOS: louros, longos e lisos. Estavam soltos e despenteados.

OLHOS: azuis,

ORIGEM: Santa Maria, São José.

PARENTES; Filha única de pais falecidos.

PROFISSÃO: Advogada

CENA DO CRIME: A vítima encontrava-se sem roupas, deitada sobre as mesmas, de costas para o chão e com a perna esquerda dobrada aproximadamente trinta e cinco graus. O braço direito estava sob as costas. Os sapatos estavam virados de lado próximos a janela.

DESCRIÇÃO DOS FERIMENTOS:
Foram sei ferimentos sendo dois (1 e 2) no braço esquerdo, dois (3 e 4) no peito, um (5) no abdômen e um (6) na altura do ombro:

1 – 3 cm de comprimento, 1 cm de largura e 4 cm de profundidade;
2 – 3 cm de comprimento, 1 cm de largura e 4,5 cm de profundidade;
3 – 3 cm de comprimento, 1,5 cm de largura e 2 cm de profundidade;
4 – 2,5 cm de comprimento, 1,5 cm de largura e 2 cm de profundidade;
5 – 3 cm de comprimento, 2 cm de largura e 7,5 cm de profundidade;
6 – 2 cm de comprimento, 1 cm de largura e 2 cm de profundidade.

ARMA DO CRIME: O formato e profundidade dos ferimentos indicam que foram feitos por um instrumento perfuro cortante. Não foi encontrado na cena do crime nada que indicasse ser esse objeto.

OBSERVAÇÕES: A forma como o corpo foi encontrado e a presença de resíduos líquidos em suas partes íntimas indica que a vítima fez sexo antes do crime e não há outros indícios que indiquem não ter sido consentido. Não foram encontrados preservativos ou suas embalagens nem detectada a presença de sêmen.
Foi encontrada uma garrafa de champanhe, vazia e duas tulipas usadas. Elas foram levadas ao laboratório para análise.
As impressões digitais recolhidas foram enviadas para identificação. Não foram encontrados outros itens tais como cabelos, fiapos de tecido, restos de elementos consumidos, etc. que possam ajudar no esclarecimento do crime. Após as fotos de praxe o corpo foi enviado ao Instituto Médico para autópsia.

DATA E HORA DO CRIME: As impressões iniciais mostram que o crime ocorreu entre às 23:30 h do dia 07 de julho de 1937 às 01:30 h do dia seguinte, data deste Laudo Técnico Preliminar.

ÚLTIMAS PROVIDÊNCIAS: A sala teve janelas e portas trancadas, lacradas e a chave colocada a disposição da polícia para novas averiguações caso necessário.

ENCERRAMENTO: Encerro esse laudo técnico Preliminar ao qual serão anexadas as fotos e resultados de análises a receber, para elaboração do Laudo Técnico Definitivo.

EMITENTE: Tenente Eduard Mood.

DATA: 08 de julho de 1937.

A tarde caia lentamente lá fora. O sol se encaminhava para mais um descanso.

As pessoas começavam a deixar seus afazeres profissionais com destinos distintos.

Alguns iriam para casa, outros para o tradicional HappyHour das quartas feiras. Mas todos estavam chocados com o que havia acontecido naquela madrugada tempestuosa.

Não era um acontecimento corriqueiro como o fora há anos atrás por isso, a notícia se espalhara com rapidez e a controvérsia das informações gerava discussões eloquentes.

Mood estava cansado. Os depoimentos colhidos no local, não eram elucidativos e os elementos colhidos na cena do crime, a princípio, não ajudavam muito.

Passou no bar da esquina da Chefatura de Polícia para um trago relaxante. Apoiou-se no balcão e ali ficou por minutos fitando o segundo copo, com tequila pela metade.

Os dados colhidos voavam sem nexo por sua cabeça.

A investigação havia tomado todo o dia, não houvera tempo de ouvir os mais próximos da vítima. Isso seria feito no dia seguinte e o preocupava porque estava dando tempo para o assassino pensar.

Após o terceiro copo, pagou, deixou o troco e despediu-se de Samuel, o barman.


Saiu pela porta e olhou para cima como se medindo a temperatura, ajeitou o sobretudo e o chapéu e sumiu na escuridão fria da noite em direção a sua casa.

Seus pensamentos já estavam em quem iria encontrar em casa.